O luto, a perda e a transformação

o luto a perda e a transformação

O luto, a perda e a transformação

Já ouviu com certeza esta frase: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. É do francês Antoine Lavoisier a propósito do princípio da conservação da matéria. Embora para a química este princípio seja  verdadeiro, será que também o podemos aplicar num processo de luto?

Quando falamos de perda (de alguém, de alguma coisa, de um sonho…), podemos falar em transformação.  O luto pode ser um processo e uma oportunidade de transformação.

O luto é um conjunto de reações a uma perda significativa.  Segundo John Bowlby, quanto maior o apego ao “objeto” perdido (que pode ser uma pessoa, animal, fase da vida, status social etc.), maior o sofrimento do luto. O luto define-se como um processo, uma travessia, um percurso,  e não um estado.  É vivenciado por cada pessoa de uma forma diferente e influenciado pela cultura, o meio em que se está inserido e o próprio contexto da perda.

Vários autores de diferentes perspetivas definiram modelos e abordaram o processo de luto. Para Worden (1983) J.W.Worden, psicólogo em Harvard, são  4 as tarefas que permitem fazer o luto,  assegurar que o processo  é feito de forma adaptativa. Estas tarefas não precisam de ser realizadas numa ordem particular, podem ser revisitadas e retrabalhadas diversas vezes.

  1. Aceitar a realidade da perda

Perante a morte, nomeadamente em situações inesperadas a sensação é de choque.  Existe uma sensação de irrealidade e descrença (principalmente se a situação é repentina). É natural que a pessoa se sinta incrédula e  pode reagir com algum embotamento (torpor) afectivo. É importante aceitar a nova realidade. Os rituais e cerimónias ajudam a aceitar a perda e a tomar consciência da realidade. Esta primeira tarefa pode ser facilitada se a pessoa for encorajada a falar gradualmente acerca da perda e das circunstâncias da mesma, se ajudar no funeral, ou se for por exemplo, espalhar as cinzas.

  1. Processar a dor e o sofrimento

A segunda tarefa deste processo acontece quando a pessoa se desorganiza e experimenta o desespero. É a altura em que se experiencia e processa a dor. É quando se manifesta emocionalmente a perda. Embora  nem todas as perdas evoquem o mesmo tipo de resposta emocional podem manifestar-se sentimentos como tristeza, raiva, culpa, ansiedade e solidão persistente, entre outras reações. Quando nos entristecemos, não podemos dizer que emoções podemos sentir. Para resolver um luto é necessário passar por ele, é necessário dar lugar à dor e ao sofrimento. É necessário permitir-se experimentar todas as emoções , e  não as evitar. Algumas pessoas tentam afastá-las ou evitá-las, ficam horas extras no trabalho, tentam não chorar ou até mesmo iniciar outros hábitos não saudáveis como fumar ou beber em excesso. Pode-se  ajudar a pessoa que atravessa o processo de luto a viver a dor em quantidades moderadas e de forma controlada para evitar uma sobrecarga emocional.

A expressão das emoções deixa espaço para novas emoções como o amor, a saudade, a alegria, a tristeza, entre outras. Passa a ser possível recordar sem sofrimento intenso e constante.

  1. Adaptar-se a viver sem a pessoa que se perdeu

A adaptação, diz respeito à tomada de consciência progressiva das perdas é deverá acontecer simultaneamente ao nível das tarefas e da reorganização logística,  como ao nível emocional.  Os ajustes também variam dependendo do relacionamento com a pessoa que se perdeu e os diferentes papéis que desempenhava. E exigem tempo! Por exemplo, alguém que perdeu um cônjuge terá responsabilidades extras como cuidador em casa. Isso requer ajustes externos. Mas uma viúva ou viúvo recente também terá que se adaptar ao conceito de morar sozinho ou fazer as coisas sozinho. Isso requer ajustes emocionais.

  1. Retirar a energia emocional da pessoa que se perdeu enquanto se reinveste em novas relações

Esta tarefa significa que embora se permaneça emocionalmente conectado à pessoa que se perdeu se “baixa o volume emocional” permitindo reinvestir em novas relações que podem ser animais, causas…. Nesta tarefa dá-se autorização para estabelecer novas relações afectivas fortes. A relação com pessoa perdida não terminou na morte e necessita ser colocado num lugar onde possa ser recordado,  podem-se guardar fotos, objectos particulares como um livro, uma caixa, um cachimbo ou outro item de lembrança. Não se está a trair a memória da pessoa que se perdeu se se “fechar o luto” e se desinveste emocionalmente da pessoa que morreu. Ao mesmo tempo abre-se espaço para se prosseguir a vida e estabelecer outras relações.

O luto pode trazer maturidade e crescimento pessoal.  Tanto a alegria das conquistas e criações como a dor do luto fazem parte da vida. Quando se perde alguém ou algo significativo, há também a sensação de perda de uma parte de nós. Este “espaço” interior perdido pode permanecer vazio, ou dar oportunidade a novos significados, ao desenvolvimento pessoal,  a transformações. Sempre que se passa por um processo de luto algo se transforma. Não se fica igual depois de uma perda. Há sempre diferença, há transformação.

A verdade da lei de Lavoisier é também a  verdade num processo de luto. O que se perde não desaparece, permanece na memória e o processo de luto traz transformação. Desenvolvem-se novas competências, aprende-se a processar a dor, reaprende-se a viver e a estabelecer novas relações.  As 4 tarefas num processo de luto  asseguram uma transformação adaptativa e fortalecem a resiliência. Assim, pode dizer-se que… nada se perde, tudo se transforma.

[1] Worden,  J.William. “Grief Counseling and Grief Therapy, Fourth Edition: A Handbook for the Mental Health Practitioner ”

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Cristina Sousa Ferreira
Cristina Sousa FerreiraPsicóloga Clínica

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2019-03-14T11:19:22+00:00Outubro 3rd, 2014|Cristina Sousa Ferreira, Emoções, Luto|
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