Perturbação obsessiva-compulsiva pós-parto

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Perturbação obsessiva-compulsiva pós-parto

Perturbação obsessivo-compulsiva pós-partoQuando o bebé nasce, nascem com ele uma montanha russa de emoções, desde uma alegria intensa, o maior amor que se descreve, mas também sentimentos de ansiedade e até de tristeza. A depressão pós-parto já faz parte do discurso do público, e tem sido feito bastante pesquisa e trabalho nessa área. No entanto, existem outras perturbações associadas ao período de pós-parto tem sido menos estudadas, como a perturbação obsessiva-compulsiva (POC) mas que são igualmente devastadoras para a mãe, e consequentemente para a família. 

A Universidade de Northwestern (EUA), encontrou nas suas pesquisas, resultados de que as mulheres recém-mães tem uma probabilidade 5 vezes maior do que outras mulheres de desenvolver POC. 

Ao terem analisado cerca de 460 mulheres, 2 semanas após terem dado à luz, descobriram que cerca de 11% das mulheres apresentaram sintomas de POC, e que após 6 meses, cerca de 50 % dessas mulheres continuaram a relatar sintomas. Para além destes dados, encontraram 5,4% de mulheres que não tinham relatado sintomas inicialmente, mas que os relatam aos 6 meses, ou seja, num momento bastante depois do pós-parto. Por isso, a desregulação hormonal no período do parto pode não explicar totalmente o surgimento destes sintomas. Embora os estudos sejam feitos com as mães, existem relatos de pais também com esta sintomatologia. Além disto, 70% das mulheres que assinalaram simultaneamente sintomas de POC e de depressão. Isto pode explicar que a POC seja pouco reconhecida, tanto pelas próprias mães tanto quanto pelos profissionais de saúde. 

Alguns exemplos de obsessões, que são pensamentos intrusivos e persistentes que normalmente ocorrem durante este período:

  • o bebé pode morrer durante o sono
  • pode ferir ou magoar o bebé (deixar cair, sufocar, apertar demasiado, afogá-lo durante o banho, etc)
  • o bebé pode deixar de respirar
  • imagem do bebé a sufocar e não conseguir salvá-lo 
  • imagens do bebé morto ou ferido
  • o bebé vai apanhar uma doença
  • dúvidas constantes (sobre os procedimento de cuidar do bebé)

Depois, as compulsões, o comportamento que pode seguir (ou não) o pensamento, que é uma tentativa de acalmar a ansiedade que os pensamentos induzem, passam por:

  • desenvolvimento de rituais 
  • verificação do bebé para ver se está vivo, a respirar, e dos procedimentos e refazê-los várias vezes
  • limpeza excessiva (quer de si e do bebé, quer das roupas e utensílios utilizados)
  • procura de informação (normalmente no Dr. Google) para tranquilização e normalização dos seus sentimentos e do que está a acontecer
  • evitação de estar sozinha/o com o bebé

A gravidez, o parto e o nascimento do seu bebé, acarretam preocupações e medos, com um grande sentimento de responsabilidade. Perante a ansiedade que isso pode provocar, o peso que estes pensamentos intrusivos ganham tornam-se insuportáveis de tolerar, trazendo sofrimento para a mãe, mas que também se estende para a criança, e para a família próxima. A ansiedade que estes pensamentos provocam, alimentam a espiral de sofrimento, pois nenhuma tem solução, e a catastrofização é permanente. A incerteza é intolerável, os comportamentos de evitamento ou de tranquilização são cada vez mais necessários, mas que acabam por impedir de aproveitar estes primeiros momentos de vida que são tão importantes e passam tão rapidamente. 

Se está numa situação semelhante, identifica algumas das características descritas, peça ajuda e marque uma consulta de psicologia. Se conhece alguma pessoa que possa estar a passar por esta situação, aconselhe-a a pedir ajudar para conseguir lidar com esta perturbação e voltar a sentir bem-estar para disfrutar da sua maternidade e do seu bebé em pleno. 

Referências: 

https://www.sciencedaily.com/releases/2013/03/130304151807.htm

ou

Miller, E.; Chu, C.; Gollan, J.; & Gossett, D. R. (2013). Obsessive-Compulsive Symptoms During the Postpartum Period: A Prospective Cohort. The Journal of Reproductive Medicine. 

https://iocdf.org/expert-opinions/postpartum-ocd/

Inês Ponte
Inês PontePsicóloga Clínica OP Setúbal
2018-09-16T17:18:46+01:0017 de Setembro, 2018|
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