A infidelidade é o fim?

O papel da terapia de casal em casos de traição

A infidelidade é o fim?Com base na minha experiência clínica com casais que passaram por situações de infidelidade, e em linha com o que a literatura preconiza, a resposta é negativa. A infidelidade não conduz, forçosamente, ao término de uma relação. Contudo, os casais que procuram terapia neste contexto podem constituir uma amostra enviesada, na medida em que a própria procura de apoio terapêutico já revela vontade de prosseguir a relação.

Pode existir a crença de que é impossível recuperar a relação de casal após uma situação de infidelidade, sobretudo pela dimensão traumática associada. Existem alguns pré-requisitos, como um elevado grau de compromisso por ambos os elementos do casal, uma vontade genuína de aceitar e seguir em frente. Nestes casos não existem “fórmulas mágicas”, mas, se o terapeuta conseguir que ambos os elementos do casal estejam comprometidos com o processo terapêutico e dispostos a serem totalmente honestos (cumpre realçar que, para a maioria dos terapeutas, a terapia conjugal não é possível se a relação extraconjugal se mantiver), as probabilidades de que a relação seja “salva” são grandes. A relação do casal terá de passar por um processo de reconstrução, de criação e consolidação de sentimentos de confiança e pertença, em direção a uma relação que não tem de ser igual à que existia. O terapeuta pode, como noutros casos, fazer sessões individuais. Quando existe uma traição, é importante perceber a “função” que esta desempenhou no contexto relacional em que ocorreu.

Que não exista a ilusão de que estes são processos terapêuticos fáceis. Nem tão pouco que existe um sofrimento exclusivo por parte de uma “vítima”, com um “traidor” do outro lado, isento de dor. Muito pelo contrário. Quem traiu enfrenta múltiplas fontes de sofrimento, como sejam o sentimento de culpa, a ambivalência entre um comportamento que adotou e os valores que defendia (questões de identidade), o medo da perda, as tentativas frustradas de provar que se é (novamente) digno de confiança.

Também para o terapeuta este processo comporta diversos desafios, sendo o maior a manutenção da neutralidade/imparcialidade. Numa situação em que podemos pensar que existe claramente um “culpado” e uma “vítima”, o terapeuta deve ser um aliado do processo terapêutico de reparação da relação e não da pessoa traída.
O primeiro requisito para trabalhar com casais nesta situação de crise é ter a mente aberta e adoptar uma postura flexível. O terapeuta deve ser capaz de lidar com muita ambiguidade, bem como de legitimar as posições de ambos os parceiros, com empatia pelo impacto e dor que a traição está a causar e, em simultâneo, empatia pelo desejo de quem teve um caso.

O terapeuta vai proporcionar um contexto seguro, procurando que o casal retorne, ou crie de novo, um estado de equilíbrio entre as dimensões de independência e obrigação, responsabilidade e liberdade, transparência e mistério (este indispensável ao desejo). É essencial que o terapeuta transmita esperança e que crie um processo construtivo e seguro para a reflexão e tomada de decisões. Deve também ajudar o casal a recriar uma atmosfera na qual o amor e o desejo possam reaparecer. Isto pode incluir negociações e adaptações mútuas, mas, acima de tudo, envolve estimular um clima de generosidade, de prazer mútuo e de aceitação um do outro como indivíduos independentes. A comunicação será, forçosamente, um dos temas mais trabalhados.

O processo de recuperação da confiança é visto por alguns autores como uma “reconstrução de muros e janelas” – os níveis de intimidade emocional da relação – quem traiu construiu uma “parede” para se desconectar do parceiro e abriu uma “janela” para deixar entrar o/a amante. É um processo que requer muita paciência e tolerância e que ocupa entre um e dois anos.

Para a maioria dos autores, o processo terapêutico deve incluir uma abordagem focada no trauma, como nos outros casos de stress pós-traumático.

O casal, e o próprio processo terapêutico, passam por diferentes fases:
Arrependimento – Tem de ser genuíno e não basta ser sentido, tem de ser demonstrado. Quem traiu não deve ceder à tentação de culpabilizar o parceiro (ex.: “tu não me davas atenção suficiente). O traidor deve, ainda, desenvolver “comportamentos compensatórios”, que podem implicar vários meses, investindo na qualidade da relação, sendo mais atencioso e proactivo.
Como estratégia, neste estádio, pode ser usado o “diálogo em afinidade”, abordando um tema de cada vez, não cedendo a conversas destrutivas nem a contra-ataques.

Desforra – Mesmo já tendo sido discutido exaustivamente o caso, muitas vezes o traído volta a ter ataques e recaídas de cólera, agredindo o outro verbal e, mesmo, fisicamente. Podem existir exigências excessivas, como prestar contas do que faz ao minuto ou contar todos os detalhes dos casos. É normal que o traído precise de tempo para libertar a mágoa e raiva no traidor. A desforra leva, habitualmente, semanas ou meses (3 a 8 meses), em que a fúria se vai amenizando.
Pode ser preciso dizer “basta”! Os “direitos da vítima” também têm limites.

Processo de exploração e esclarecimentos ou Clarificação – É nesta fase que muitos casais pedem ajuda e é nela que começa o verdadeiro trabalho: olhar para o problema. Conta-se a “história do affair”. Muitos traidores recusam-se a esclarecer dúvidas e dar informações: por vergonha, medo de magoar e piorar a retaliação do parceiro, constrangimento em dizer que não se sentem sexualmente atraídos pelo parceiro ou que só optaram pelo casamento porque o amante (por quem ainda estão apaixonados) não quis prosseguir a relação. Quanto ao que, quando, e como, contar, existem diferentes perspetivas. Parece-me que, sem um compromisso de honestidade total e abertura para esclarecer angústias e anseios, é difícil que um casal supere uma traição. É exceção a situação em que o próprio elemento traído não quer saber detalhes da traição.

Compensação – É a componente mais importante para o futuro. Para recuperar a relação é preciso conceder uma compensação ao parceiro, o que se pode materializar no esforço para agradar, dar atenção, ser prestável, carinhoso, corrigir antigos maus-tratos e negligências, atender com especial cuidado às necessidades do outro. São incorporadas novas práticas.

Perdão – Ao continuar na relação, o traído mostra implicitamente disposição para perdoar e superar a dor. Mesmo que diga coisas horríveis e puna constantemente, isso faz parte do processo. Não significa esquecer, negar ou minimizar, mas humanizar e empatizar com o parceiro, compreender os contextos e dispor-se a reformular a relação.

Reasseguramento – Em simultâneo, há um período longo de insegurança e de reconquista da confiança. Quem traiu pode ter de tranquilizar o parceiro durante meses ou, mesmo, anos. Inicialmente, o traidor deve perguntar o que tranquilizaria o parceiro, aceitar e aceder aos pedidos (exs.: ver o telemóvel, consultar emails). Este pode ser “o preço a pagar” para reconquistar a confiança e tranquilizar alguém que sofreu um trauma. É importante ter paciência e ser generoso. A prioridade na fase de recuperação da confiança não é o conforto do traidor, mas o do parceiro traído.

Reajustar o relacionamento – Só acontece depois de serem percorridas as seis fases anteriores. Dezoito meses após a descoberta ou revelação, é possível construir uma nova relação, mais verdadeira, profunda e cúmplice, mais aberta, com mais verdade. Pode ser feita uma revisão do relacionamento, identificando forças e fraquezas, e discutindo o que pode ser melhorado e como prevenir comportamentos que sejam uma ameaça para o casal, para que não ocorram situações que propiciem a infidelidade – prevenção de recaídas. Os dois olham para a relação e analisam os comportamentos e lacunas dos dois, a dois.

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27/09/2022

Anonymous
Rita Fonseca de Castro
Rita Fonseca de CastroPsicóloga Clínica e terapeuta de casal
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