2 + 1 não é igual a 3. Quando um filho nasce, não nasce sozinho.

2 mais 1 não é igual a 3

Quando um filho nasce, não nasce sozinho

2 + 1 não é igual a 3. Quando um filho nasce, não nasce sozinho.Considerando que uma família evolui em várias etapas (Ciclo Vital da Família), o nascimento do primeiro filho representa um dos momentos de transição e potencial crise que maiores desafios traz ao casal. Por melhor que seja a qualidade da relação conjugal, após o nascimento de um filho é como se muito do que constituía a vida familiar começasse do zero. O que verificamos na prática é uma procura significativa de terapia por casais nesta fase da vida.

Mesmo quando a gravidez é planeada e desejada, existe uma grande disparidade entre as fantasias que o casal alimenta e a realidade pós-nascimento. Estas fantasias, mais ou menos alicerçadas na realidade e, em grande medida, decorrentes da inexperiência, passam por acreditar que vai ser um momento de alegria e felicidade extremas, um garante de continuidade da família, a concretização do milagre da vida e que o filho vai fortalecer a sua união. Contudo, e não obstante estas e outras infindáveis vivências positivas, factores como a privação de sono, o stress, a mudança de horários, as novas tarefas, a instabilidade de humor (sobretudo materna, decorrente de alterações hormonais) e a pressão que resulta da dificuldade em conciliar a vida familiar e a profissional, podem conduzir a sentimentos de insatisfação e, mesmo, a conflitos conjugais. Um bebé representa mais trabalho, o que, por seu turno, exige um maior dispêndio de energia e de tempo, além de despesas superiores. Quem deverá ter este trabalho, gastar este tempo e energia e assegurar estes encargos financeiros são só algumas das (novas) questões que se colocam.

Segundo diversos estudos, as mulheres sentem mais o impacto da chegada de um filho nos primeiros meses, experimentando uma menor satisfação conjugal após o nascimento, se compararmos com o período de gravidez. Para o pai, este impacto parece ser mais intenso entre os seis e os dezoito meses de vida da criança – é nesta fase que sente a mulher mais crítica, menos paciente e a evitá-lo sexualmente. De facto, os primeiros dezoito meses depois do nascimento parecem constituir o período mais difícil do casamento. Muitas vezes, as mães sentem-se sós, cansadas e deixam de se sentir desejadas pelos companheiros, como se já não fossem capazes de os atrair. Por outro lado, os maridos sentem-se preteridos e relegados para segundo plano – o primeiro lugar, que era seu, passou a ser do bebé.

Apesar destes “limites temporais”, é importante relembrar que as exigências e o impacto dos filhos num casamento não terminam aos dezoito meses.  

Quanto mais, e melhor, preparado estiver o casal, melhor será também a forma como enfrentará as dificuldades vindouras. Se pensarmos, a maioria dos programas de preparação para a maternidade incide apenas nas questões mais funcionais, como as associadas à gravidez, parto e amamentação, focando-se pouco no relacionamento e nas mudanças nas dinâmicas do casal após o nascimento de um filho.

Uma criança nunca pode ser responsabilizada pelo sucesso ou fracasso de uma união. O que pode suceder é que, com a sua chegada e tudo o que a acompanha, emerjam de forma mais abrupta problemas que já existiam, por vezes, muito tempo antes de ela nascer. Deste modo, a qualidade da relação pré-nascimento do primeiro filho parece ser um preditor muito importante para a superação das dificuldades que surgem após o nascimento. Se estas não forem enfrentadas e tidas como um foco fundamental de resolução podem cristalizar-se em padrões relacionais pouco funcionais e contribuir para a degradação progressiva da relação.

Neste contexto, a terapia conjugal pode constituir-se como um recurso importante. Aspectos como a resolução de conflitos, a adopção de uma comunicação mais eficaz, a promoção de uma maior tolerância às diferenças, o investimento no compromisso a dois ao invés de conquistas pessoais, bem como a adopção de manifestações de amor com recurso à linguagem privilegiada pelo outro, são alguns dos focos do trabalho do terapeuta com o casal.

Para que o ajustamento e a adaptação à chegada de um novo elemento à família sejam vividos da forma mais positiva possível, deixamos algumas sugestões:

– Faça uma lista das coisas de que o seu filho precisa e tenha-as sempre em casa em número suficiente. De entre todas as necessidades de um recém-nascido que não consegue controlar, esta está sob o seu controlo.

– Tente descansar o máximo possível. Dormir oito horas sem interrupções será impossível nos primeiros meses de vida do bebé, mas tente dormir quando conseguir. Aproveite as sestas do seu filho para fazer também uma sesta. Se está a amamentar, considere retirar leite para poder passar uma noite inteira a dormir e delegar a tarefa no pai.

– Procure descodificar os diferentes choros do seu bebé para responder mais eficazmente quando ele chora. Ao responder de forma mais rápida e certeira às necessidades dele, ambos sentir-se-ão muito mais felizes. Pode criar um registo dos momentos em que o bebé chora e por que motivo chorou (fome, sono, fralda suja…) para encontrar um padrão de choro.

– Partilhe o máximo possível de tarefas. Tal como todos os outros temas, também este deve ser conversado e alvo de negociação o mais cedo possível antes da chegada do bebé. A partilha de tarefas favorece a satisfação com o companheiro e com a própria relação de casal.

– Fomente o suporte extra família nuclear (família alargada e amigos). De entre as pessoas próximas e em quem confia, encontre quem possa desempenhar a função de babysitter. Muitos casais experimentam sentimentos de culpa quando saem pelas primeiras vezes e deixam o bebé em casa, como se o tivessem abandonado. Se o filho ficar aos cuidados de alguém próximo estes sentimentos podem ser atenuados.

– Crie ou mantenha hobbies e encontre o seu tempo. Sem prejuízo da importância da vivência em casal e a três, o tempo individual, para o “agora pai” e a “agora mãe” se dedicarem a si e a actividades prazerosas, são imprescindíveis. Com uma ressalva, mesmo que seja para ler ou ouvir música, faça por passar este tempo fora de casa. Se ficar, será capaz de não ir ter com o seu filho se o ouvir chorar ou chamar por si?

– Em simultâneo, não deixe de alimentar o “nós”. Com os novos papéis e as novas prioridades que surgem, a atenção de cada elemento do casal passa a centrar-se mais no bebé e, muitas vezes, deixa de haver um momento “só” para olhar para o outro. Mantenha tempo a dois! Seja um passeio de vinte minutos, uma saída para jantar, ir ao cinema ou, mesmo, um fim-de-semana romântico a dois. Não deixe de namorar e de alimentar o espaço do casal, preservando a intimidade e aquilo que é só vosso.

– Distribua a atenção. Não a foque de forma excessiva e exclusiva no bebé, sob pena de o seu marido/mulher se poder sentir posto de parte. Não se concentre apenas em ser bom pai ou boa mãe, mas também em ser competente no papel de marido e mulher. Acredite que é possível sentir-se igualmente competente no desempenho dos dois papéis.

– Favoreça a comunicação, compreensão, demonstração de amor, sentido de compromisso e mostre preocupação com o seu parceiro. Todas estas dimensões contribuem positivamente para a intimidade do casal e, por inerência, para a satisfação com a vida sexual. Não se esqueça da importância desta última. 

– Reinvente permanentemente a relação de casal, apelando à sua criatividade.

Rita Fonseca de Castro

Psicóloga Clínica e Terapeuta Familiar

Rita Fonseca de Castro
Rita Fonseca de CastroPsicóloga Clínica e terapeuta de casal
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