Afinal eramos 3: O casal e a perturbação obsessivo-compulsiva

Afinal eramos 3: O casal e a perturbação obsessivo-compulsiva

Afinal eramos 3: O casal e a perturbação obsessivo-compulsivaExistem poucas investigações sobre a forma como o convívio com uma pessoa com perturbação obsessivo-compulsiva (doravante, P.O.C.) afecta directamente a relação conjugal. Contudo, imaginemos que, a todos os desafios que uma relação a dois acarreta, se soma a presença de uma perturbação que se caracteriza pela presença de pensamentos ou imagens intrusivas recorrentes, geradoras de ansiedade (obsessões) e/ou comportamentos repetitivos que interferem de modo significativo com o normal funcionamento quotidiano (compulsões), bem como um modo de estar marcado pela rigidez e inflexibilidade.

O Diogo começou psicoterapia comigo quando tinha 24 anos. Os seus primeiros rituais ocorreram aos 16, altura em que lavava várias vezes as mãos para aliviar a ansiedade causada por pensamentos repetitivos de que poderia ter tocado no mesmo sitio que alguém doente e vir a ser contagiado. Quando nos conhecemos tinha passado por um período de intenso sofrimento (que chegou ao estado de total isolamento, fechado em casa, para evitar a possibilidade de qualquer contacto, por mais distante que fosse, com o sexo oposto) quando teve uma relação amorosa de três meses. Quando solteiro, a P.O.C. desaparecia. As suas obsessões remetiam para temáticas de traição. Se tivesse namorada e, por coincidência, cruzasse o olhar com uma qualquer rapariga (podia ser quem o estava a atender na caixa de um supermercado), considerava que já estava a trair a companheira. Até sonhar com uma rapariga que não a namorada do momento, era considerado como uma traição. Para o Diogo a solução passava por nunca mais ter uma relação. Por outro lado, invadiam-no sentimentos de profunda tristeza quando pensava que ia ficar para sempre sozinho e não ia ter possibilidade de viver uma relação feliz, casar, constituir família…

Alguns exemplos de dificuldades/desafios relacionais para quem tem P.O.C.:

Desde logo, para alguém com P.O.C., pode ser difícil estabelecer uma relação íntima, pelo impacto que a perturbação pode ter ao nível da auto-imagem e auto-estima e pela vergonha em partilhar a perturbação e sintomas relacionados. Depois de estar em relação, quem tem a perturbação pode sentir que não é suficientemente compreendido e apoiado. Por seu turno, quem tem que conviver com uma perturbação que “não lhe pertence” pode considerar que o outro é egoísta, porque coloca a P.O.C. em primeiro lugar, mesmo antes do marido/mulher e, até, filhos e que não se está a esforçar o suficiente para ultrapassar a perturbação.

– Mesmo nas fases em que a P.O.C. se encontra mais estabilizada, as dúvidas parecem encontrar sempre brechas por onde entrar, pelo que é muito frequente o pedido de “reasseguramento” – i.e., a pessoa com P.O.C. delega o cumprimento do ritual no companheiro/a, pedindo-lhe, por exemplo, que se certifique que uma porta ficou mesmo fechada. Neste caso é possível cumprir o pedido, mas existem casos em que ninguém é capaz de “tranquilizar a obsessão” – imaginemos que o pedido é de que se certifique que não existe qualquer sujidade na rua por onde vai ter que passar.
– O companheiro/a de alguém com POC pode também constituir-se como um factor de agravamento das obsessões /compulsões. Pensemos em  alguém que tem obsessões de contaminação por sujidade e mantém a casa imaculadamente limpa para não sofrer de ansiedade com esta questão ou alguém que tem obsessões de simetria ou outras que remetam para a organização e arrumação do espaço. Se o marido ou mulher chega a casa e não tem qualquer preocupação em circular com os sapatos que trouxe da rua ou não é particularmente arrumado, surgirão situações de agravamento da sintomatologia e potencial conflito no casal.

– A vida sexual é uma das áreas da vivência conjugal que mais pode sofrer com a interferência da P.O.C.. Consideremos alguém com obsessões relacionadas com contaminação (a preocupação com a higiene das zonas íntimas será intensa) ou com temas perturbadores, como agressões de natureza sexual.

– É ainda de considerar a possibilidade do casal se sentir isolado, pelas dificuldades de interacção e convívio social que a P.O.C. frequentemente acarreta.

Como ajudar alguém próximo com Perturbação Obsessivo-Compulsiva?

– Em primeira instância, para ser útil dever-se-á procurar toda a informação possível. Quanto mais souber sobre a perturbação, mais fácil será empatizar com quem a tem, com a própria perturbação e suas manifestações. E, quanto maior for a empatia pela luta permanente que uma pessoa com P.O.C. enfrenta, mais fácil será também demonstrar compaixão, comunicar de forma eficaz e sentir/mostrar verdadeira preocupação pelo sofrimento do outro.

– No que concerne à comunicação, se esta é uma dimensão fundamental na vivência e satisfação conjugais, ainda mais o será na presença de uma perturbação como esta. A manutenção de uma comunicação honesta e aberta é condição sine qua non para minimizar a ocorrência de mal-entendidos (por exemplo, pensar que “ele/ela já não me considera atraente” por não saber os desafios que a pessoa está a enfrentar no momento), sobretudo quando há intensificação ou mudança nos sintomas O humor pode ser um recurso importante, se usado enquanto se cuida e apoia, para ajudar a “aliviar” o peso que a P.O.C. instala no contexto relacional.

– Sensibilizar e motivar ao máximo para a procura de terapia e estar disponível para acompanhar e estar presente em algumas consultas. Se necessário, procurar também terapia individual ou de casal/familiar ou grupos de apoio para familiares, caso estes existam. Quem tem P.O.C. deve querer, e procurar activamente, tratar os sintomas. Caso contrário, toda a ajuda do parceiro será em vão. A valorização da relação amorosa poderá ser mesmo um factor motivador para a procura de ajuda.

– Tentar ao máximo colocar-se na posição do outro, compreendendo que a realização de compulsões está fora da esfera da vontade, obedecendo a uma urgência de as realizar, acreditando que, não as fazendo, algo de verdadeiramente assustador pode suceder – é muito frequente que a compulsão tenha como função “defender”/colocar em segurança precisamente as pessoas de quem se gosta mais.

– Relacionado com o aspecto anterior, não sentir a P.O.C. como algo “pessoal”, que é dirigido a si, o que é dificultado pela rigidez e inflexibilidade que caracterizam a perturbação. Não considerar que o outro não está a ouvir, a ser teimoso ou a não querer mudar, tentando sempre manter a calma e evitar conflitos, comunicando as emoções – por exemplo, “estou a sentir-me frustrado/a quando tu…” ou “isto também me afecta quando/porque…”.

– Não repreender, criticar, assumir uma postura defensiva ou participar nos rituais compulsivos. Este último é um aspecto crucial. As investigações demonstram que, em 60% dos casos de indivíduos com perturbação obsessivo-compulsiva, os elementos da família são envolvidos na realização de rituais (Safran e colaboradores, 1995). Contudo, esta não é a forma ideal de lidar com a P.O.C.. Por mais forte que seja o impulso de reassegurar (as formas mais frequentes são verificar, organizar, limpar) para alcançar paz e tranquilidade, isto apenas será eficaz a curto prazo, acabando por reforçar os comportamentos compulsivos a longo prazo. Para que ocorra progresso terapêutico, é essencial que a pessoa com P.O.C. resista à realização destes comportamentos para que eles se extingam. Se outrém os está a realizar por si, não existe qualquer ganho.
– A pessoa é mais do que a sua perturbação. Por maior que seja a expressão dos sintomas, tornando-se difícil distingui-los da pessoa, estes não são um equivalente da sua personalidade. A estrutura/essência da pessoa não muda pela presença de pensamentos obsessivos ou rituais compulsivos. O verdadeiro eu existe para além dos sintomas, por mais que estes o “mascarem” ou escondam.
– Manter uma perspectiva a longo prazo, estando ciente de que não se deve pretender alcançar perfeição, mas progresso. Muitas vezes é difícil encontrar evolução ou mudanças positivas, mas desde que exista a tentativa de procurar tratamento e aderir às tarefas terapêuticas, podemos considerar que a P.O.C. vai melhorar. Ter paciência, compaixão e evitar comparações minimizará a probabilidade de ocorrerem sentimentos de zanga, raiva ou derrota (pela P.O.C. e/ou pela pessoa com P.O.C.).
– O casal deve ver-se – e funcionar efectivamente – como uma equipa –  os dois unidos contra a P.O.C. – com quem tem P.O.C. a assumir o compromisso de procurar terapia e a aceitar que a família não se vai aliar à P.O.C. nem facilitar-lhe a vida.
– Não se isolar. A convivência com alguém com P.O.C. não é fácil, pelo que falar sobre as dificuldades que se está a enfrentar na relação conjugal é fundamental.

Já com 25 anos, o Diogo conheceu a Ana através de um site. Depois de muitos meses em que conversavam sobre tudo, inclusive, sobre “um segredo” que o Diogo ainda não se sentia preparado para revelar, sentiu que lhe deveria contar que tinha P.O.C.. A reacção da Ana foi a melhor possível. Empatizou com todas as suas preocupações e sublinhou a vontade de se encontrarem pessoalmente. Passado uma semana de namorar com a Ana, o Diogo trouxe-a ao consultório. Acabou por estar presente em algumas das nossas consultas e em algumas das tarefas de exposição, fase crucial da intervenção terapêutica. Conseguiram até passar a fazer algum humor sobre estas situações. O Diogo e a Ana estão juntos há mais de um ano, já vivem juntos, e a P.O.C. é uma companhia quase ausente, que não permitem que os perturbe. Quando aparece, olham-na de frente, conversam sobre o que ela está a dizer ao Diogo e a pedir-lhe que faça e a Ana ajuda-o a lidar com os desafios.

Rita Fonseca de Castro

Psicóloga Clínica e Terapeuta Familiar 

Rita Fonseca de Castro
Rita Fonseca de CastroPsicóloga Clínica e terapeuta de casal
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