Substituir culpa por responsabilidade

Substituir culpa por responsabilidadeQuantas vezes não nos sentimos culpados por algo? Uma ação, uma palavra, uma atitude que tivemos e que depois parece que falta o controlo sobre as suas consequências.

Mas será realmente culpa que devíamos sentir? Retirarmos a sensação de culpa não significa que não nos responsabilizemos pelas nossas ações, mas pode ter um efeito reparador para nós.

A diferença entre culpa e responsabilidade reside em dois grandes aspetos determinantes: morais e psicológicos. Nos morais, a própria definição das palavras no dicionário mostra bem a diferença – culpa vem de delito, crime, pecado, uma falta voluntária contra o dever; já responsável refere alguém que origina determinada situação e que deve responder pelos seus atos. Há já um fator castrador no significado da palavra culpa que não está associado à palavra responsabilidade. No psicológico, tem um efeito muito grande no nosso comportamento e bem estar.

A culpa é uma emoção auto-consciente que tende a ocorrer quando um comportamento é inconsistente com as normas impostas ou a ideia de como nos devemos comportar. No entanto, estas normas não precisam de ser objetivas, transversais a toda a sociedade, ou bem definidas. Podemos estar a falar de valores, objetivos ou crenças relativas a regras que temos que seguir, impostas por nós ou por terceiros de forma consciente ou inconsciente.

Ou seja, alguém que roube algo de uma loja, pode sentir culpa porque transgrediu uma norma societal objetiva, bem estabelecida, que é transversal a toda a gente. Por outro lado, alguém que ache que tem de ser sempre perfeita em tudo o que faz e que precisa estar constantemente a trabalhar, pode sentir culpa por ver um pouco de televisão, ou tirar um tempo para passear. Isto acontece porque está a quebrar uma regra que aplica apenas a si, tendo em conta o nível de exigência que coloca em si, e que por isso mesmo, é subjetiva e não tem de ser aplicada a toda a gente. Ou seja, se um amigo lhe descrevesse exatamente a mesma circunstância, possivelmente não acharia que o amigo deveria sentir-se culpado.

Esta culpa tende a ser invisível, pois não há propriamente uma ação ou algo que tenha feito que seja considerado repreensível, censorável ou condenável. Por ser invisível, há muitas vezes a sensação de não compreensão da mesma, quer pela pessoa em si, como por terceiros. Podemos sentir culpa por várias coisas: sobre algo que fizemos; sobre algo que não fizemos, mas queríamos ter feito ; culpa sobre algo que pensamos ter feito ; culpa de não termos feito o suficiente; por vezes ter um só pensamento pode ser suficiente para se sentir essa culpa.

Agora, o que é terrível na sensação de culpa é que ela acaba por ser limitadora e até mesmo paralizante. Com culpa vem uma conotação emocional negativa muito forte, associada a sensações de vergonha, medo e desvalorização, como se fosse esperada uma forma de punição após um sentimento de culpa. Não só esperada, merecida. E, por isso, muitas vezes auto-realizada. Portanto, não nos mobiliza para a ação, só nos faz punir e sentirmo-nos pior com isso, estando muitas vezes associada à nossa auto-perceção e até mesmo identidade – “sou sempre culpado de tudo”.

Há muitas pessoas que sentem que devem e têm de sentir culpa, porque fizeram algo de errado, com ou sem intenção. E aqui vem a grande diferença entre culpa e responsabilidade. Eu posso responsabilizar alguém pelas suas ações, sem fazer com que sinta culpa. Ou seja, há uma admissão de que algo não correu bem, pode até existir arrependimento, mas há uma ação no sentido de tentar compreender o que aconteceu, e agir no sentido da mudança, ou para reparar esse erro ou para aprender como não o voltar a repetir. A responsabilidade mobiliza para a ação, assumindo as ações e consequências das mesmas com honestidade e transparência, permitindo uma certa compaixão e motivação para melhorar.

Uma das melhores formas de deixarmos de sentir culpa é livrarmo-nos destas regras rígidas que colocamos a nós mesmos – os “tenho”, “devo” – que acabam por nos colocar continuamente em situações destas e numa sensação de culpa crónica. Para além disso, pensarmos que não estamos em controlo de tudo – estamos apenas em controlo das nossas ações, e mesmo aí podemos falhar, cometer erros, importante é aprender com eles e podermos evoluir para uma próxima ocasião. Por isso, da próxima vez que pensar “eu tenho culpa”, tente mudar o pensamento para “eu sou responsável por” – e veja que efeito tem em si.

O processo terapêutico pode ajudar na tomada de consciência desta responsabilidade, evitando padrões de culpa que causam dor e recorrer a um padrão mais saudável e libertador.

Todos vamos cometer erros, não existem pessoas perfeitas. Mas está nas nossas mãos reconhecer e aceitar as nossas ações, e usá-las como catalisador da mudança, para que no fim, o nosso sofrimento possa diminuir.

Referências Bibliográficas:
Berndsen, M., & Manstead, A. S. R. (2007). On the relationship between responsibility and guilt: antecedent appraisal or elaborated appraisal? European Journal of Social Psychology, 37(4), 774–792. doi:10.1002/ejsp.397

Greenspan, P. S. (1992). Subjective Guilt and Responsibility. Mind, 101(402), 287–303. http://www.jstor.org/stable/2254336
Smith, K. (2016). From Guilt to Responsibility. Exploring Your Mind. Retirado a 12 de Julho, 2022, de https://exploringyourmind.com/from-guilt-to-responsibility/

Stosny, S. (2008). Guilt vs. Responsibility is Powerlessness vs. Power. Psychology Today. Retirado a 12 de Julho, 2022, de https://www.psychologytoday.com/us/blog/anger-in-the-age-entitlement/200805/guilt-vs-responsibility-is-powerlessness-vs-power

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Inês Pinto da Costa
Inês Pinto da CostaPsicóloga Clinica
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