Sexual ...Idade

O envelhecimento e a sexualidade

Segundo a Organização Mundial de Saúde (2006) a Sexualidade “é um conceito abrangente que inclui a identidade sexual, o corpo, as expressões, os afetos, a reprodução e a promoção da saúde sexual e reprodutiva. É uma energia que nos motiva a procurar amor, contacto, ternura, intimidade, que se integra no modo como nos sentimos”. De acordo com a mesma organização, a saúde sexual tem em vista o bem-estar físico, mental e social. Requer um enfoque positivo e respeitoso da sexualidade e das relações sexuais, assim como a possibilidade de ter experiencias sexuais prazerosas e seguras, que nunca devem ser coercivas, exploradoras ou levar a problemas de saúde.

Assim, a sexualidade é uma dimensão natural e salutar que integra todos os ciclos da vida, sendo expressa de formas diferentes nas suas variadas dimensões (física, ética, psicológica, emocional). De acordo com a investigação científica nesta área, cerca de 60% das pessoas com mais de 60 anos relata ter uma vida sexual igual ou melhor do que quando comparadas com a época em que tinham 40 anos, e cerca de 26% de pessoas com mais de 75 anos afirma continuar sexualmente ativa (LTC Ombudsman, 2015).

No entanto, as pessoas adultas mais velhas podem demonstrar mais dificuldades no acesso a uma sexualidade vivida de forma plena.

O idadismo (conjunto de estereótipos discriminatórios que têm por base a idade, ou seja, atitudes e práticas negativas somente fundadas na idade da pessoa) coloca uma barreira na procura de uma vida sexual prazerosa por parte de pessoas adultas mais velhas, promovendo uma desqualificação sexual no envelhecimento, baseada no estigma e em atitudes negativas que preconizam que as pessoas adultas com mais idade não sentem desejo sexual. Esta desqualificação é alimentada por fatores socioculturais, nomeadamente a segregação das sexualidades que não têm como base a reprodução, a hipervalorização do coito vaginal e a sexualidade entendida como uma prerrogativa da juventude.

Mas, se é uma realidade que a sexualidade é vivida de forma diferente com o avançar da idade, também é verdade que ela não termina com a menopausa, nem com o envelhecimento. Todavia, poderão existir desafios relacionados com a sexualidade, nomeadamente:

Biológicos:

  • Deterioração do funcionamento e alterações fisiológicas;
  • Doenças (crónicas ou temporárias) que poderão condicionar a prática sexual, bem como, efeitos secundários provocados pela toma de medicação;
  • Disfunções sexuais (orgânicas ou psicológicas) da própria pessoa ou do/a parceiro/a.

Relacionais/sociais:

  • Falta de parceiro/a, ou ausência de um/a parceiro/a estável;
  • Viuvez;
  • Interesse do/a parceiro/a;
  • Qualidade da relação com o/a parceiro/a;
  • Falta de privacidade – por viver em casa de outras pessoas (filhos/as), instituição, lar, etc.

Culturais:

  • Atitudes negativas por parte de técnicos/as e família;
  • Crença de que não há desejo sexual, necessidades sexuais, que se é assexuado/a;
  • Crença de que a sexualidade na terceira idade é uma perversão/patologia

Psicológicos:

  • Regressão a uma segunda infância – maior dependência e menor autonomia;
  • Sucessão de perdas e consecutivos lutos (familiares, económicas, físicas e sociais);
  • Sentir-se pouco atraente – baixa auto-estima;
  • Falta de informação sobre a sexualidade.

De facto, com as mudanças vividas no envelhecimento, pode haver diminuição da frequência da atividade sexual pela não aceitação da sexualidade nesta fase do ciclo de vida, bem como da capacidade reprodutiva, mas isso não é sinónimo de perder a capacidade de ter e dar prazer, nem de procurar relações significantes e positivas, de afeto e de amor.

Aliás, ter um/a bom/boa parceiro/a nesta fase da vida pode ser determinante para a qualidade e satisfação da relação, uma vez que o fator biológico é ultrapassado caso a pessoa com que se está em relação seja cuidadora, investida, interessada. Assim, é fundamental inverter os mitos associados à sexualidade nas pessoas mais velhas e integrar crenças positivas (e baseados em factos científicos), nomeadamente que:

  • Nesta fase da vida pode existe maior liberdade para uma reinvenção do erotismo – a reforma, a autonomia/independência dos/as filhos/as, entre outros, podem ser fatores positivos no sentido em que dão abertura para uma maior exploração do reportório erótico, já que há uma diminuição das preocupações e das responsabilidades associadas;
  • A atividade sexual regular ajuda a manter uma capacidade para o sexo e permite manter a funcionalidade dos órgãos;
  • Com o avançar da idade há um aumento da capacidade de antecipar e ajustar respostas emocionais proporcionando uma melhoria na capacidade de regulação de emoções;
  • A vivência de um estilo de vida saudável diminui a probabilidade de condições patológicas;
  • Bem-estar aumenta com a idade;
  • A vivência do envelhecimento é vasta e heterogénea, pelo que a procura de resoluções simplistas deve ser evitada.
  • A sexualidade não é a relação coital. Existem várias formas de ter prazer que podem ser alcançadas sem ter como premissa a relação penetrativa.

Em suma, a atividade sexual, o desejo e o erotismo não terminam com o início do envelhecimento, não têm prazo de validade. Apesar das modificações inerentes a este ciclo vital, é importante que a vivência da sexualidade seja considerada e possa ser desfrutada sem estigma, sem culpa e sem discriminação.

Bibliografia

Crawford, M. (2008). Viver o sexo com prazer: Guia da Sexualidade Feminina. Lisboa: A Esfera dos Livros.

LTC Ombudsman. (2015). Sexuality and ageing fact sheet: Debunking the Myths https://ltcombudsman.org/uploads/files/support/sexuality-and-aging-fact-sheet-2015.pdf

Traeen B., H. G. (2017). Sexuality in Older Adults (65+) – An Overview of the literature, Part 1: Sexual Function and its difficulties. International Journal of Sexual Health, 1-10.

Traeen, B. C. (2017). Sexuality in Older Adults (65+) – An Overview of the recent Literature, Part 2: Body Image and Sexual Satisfaction. International Journal of Sexual Health, 11-21.

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Sara Malcato
Sara MalcatoPsicóloga Clínica – Formadora – Educadora Sexual - Técnica de Apoio à Vitima
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