“O regresso à vida faz-se em segredo, com o estranho prazer vindo do
sentimento de adiamento. O traumatismo quebra a personalidade anterior em mil pedaços e,
quando ninguém reúne os cacos para os amparar, o sujeito permanece morto ou dificilmente regressa
à vida. Mas, quando é sustentado pelo quotidiano afectivo daqueles que lhe são próximos
E quando discurso cultural dá sentido à mágoa, ele consegue retomar um outro tipo de desenvolvimento”

Cyrulink, 2007

Resiliência…

 Como metamorfosear a dor que a doença carrega?

 

A resiliência humana envolve naturalmente a reconfiguração do mundo interno psicológico, com o objectivo de elaborar a vivência e a experiência e, para tal, recorre inúmeras vezes à presença do imaginário e até da subjectividade, dimensões importantes da condição humana. Assim, quando a pessoa conquista a percepção da vivência enquanto doente, constrói factores de crescimento e desenvolvimento pessoal.

Consideremos algumas doenças com inequívocas condições adversas (adversidade, advém do latim e significa contrariedade, infortúnio) ou eventualmente traumáticas (a palava trauma, representa qualquer lesão produzida por um gene exterior; tem origem na palavra grega, ferida), pela carga emocional que transportam, pelo sofrimento que provocam, pela ideia que muitas vezes produzem face à aproximação da morte, pelas diferentes perdas e muitas vezes pelas questões que levantam, pelas respostas que não oferecem, pela multiplicidade de sentimentos com que obrigam a pessoa depara-se, pela angústia que pode causar na família. Por tudo isto e muito mais, algumas doenças podem transformar-se numa situação adversa e eventualmente traumática que coloca em risco o individuo e a sua vida.

Mas será que perante tamanha adversidade é possível prosperar e crescer? Sairão vencedores quando elaboram um projecto quando dão sentido às vivências e experiências e quando conseguem metamorfosear a dor? Serão estas pessoas exemplos como Frida Kahlo ou Beethoven que face a tremendas adversidades transformaram a dor em criatividade e/ou genialidade?

A literatura revela que ao narrar aquilo que mais marca e stressa a pessoa que tem uma doença exerce alguma influência positiva. O tempo vai passando e assim pode fazer despertar o sentido (Cyrulnik, 2007). O mesmo refere ainda que a tendência para descrevermos aquilo que aconteceu, a experiência por que passámos, pode ser um factor de resiliência e através da palavra pode realizar-se uma remodelação afectiva. Será então necessário dar sentido e voz às situações/fases que vamos vivenciando, que vão marcando o nosso percurso.

Podemos concluir que enquanto o trauma ou a situação adversa não adquirir um sentido “permaneceremos siderados, estupefactos, estúpidos, confusos por um turbilhão de informações contraditórias, que nos tornaram incapazes de decidir (Cyrulnik).

P.S1 Beethoven – músico, compôs parte das suas obras primas padecendo de surdez total. Perante tamanha adversidade que lhe poderia ter roubado o prazer de tocar e sentir a música, este homem resiliente, fez crescer a genialidade e tornou-se num dos maiores compositores de sempre.

P.S2 Frida Kahlo – apesar de tamanhas adversidades (uma poliomielite, que a deixou com um andar coxo, sofreu posteriormente um acidente que a deixou imobilizada por alguns anos – resultado deste sofrimento é um retrato extraordinário de todo o processo de dor. Foi aliás o facto de ter ficado tanto tempo presa numa cama, que a levou a pintar com maior frequência, dando fôlego à sua criatividade, como forma de catarse, de purificação e libertação da alma.