Infertilidade- Anita a mulher que não conseguia ser mãeAnita estava casada com António há 5 anos. Há cerca de três anos, sofreu um aborto espontâneo, e essa experiência foi bastante perturbadora para ela. Não estava ativamente a tentar engravidar na altura, e a notícia apanhou-a de surpresa. Nunca tinha olhado para si mesma como uma mulher fértil, pois já tinha relações desprotegidas com o marido desde sempre, sem nunca ter engravidado. Sentiu-se feliz e surpresa com a notícia, para na primeira ecografia, perceber que a gravidez não era viável. Ficaram ambos devastados, mas concordaram que não se deixariam abater e que passariam a tentar ter um bebé de uma forma mais consciente e ativa.

Anita, feliz por saber que poderia engravidar, deu início a uma serie de exames, e os resultados, tanto dela, como os de António, estavam dentro do esperado. Fisicamente, não havia nenhum impedimento para engravidarem. Apesar de ter 36 anos, o seu médico foi bastante encorajador e incentivou-os a começarem a tentar, divertindo-se ao longo do processo. Começaram a contabilizar os dias férteis e iniciaram o processo a que ela, hoje, chama de calvário. Refere que, nesta altura estavam felizes, como no início de uma viagem que tem tudo para ser fabulosa. Passaram meses, e um após outro, o período insistia em aparecer normalmente, não dando sinal nenhum de que suas preces seriam atendidas. Foram ao médico, e foi-lhes dito que teriam aqui de tomar uma decisão. Visto não haver problema nenhum, poderiam continuar a tentar, ou dar início a um tratamento de fertilização. Nessa altura, acharam que ainda seria cedo para tomar essa “estrada”, que sabiam ser violenta, quer física, quer financeira, quer emocionalmente. Tiraram umas férias e decidiram não pensar mais no assunto, na esperança de relaxarem e deixarem que as coisas acontecessem tranquila e naturalmente.

Um ano se passou e Anita teve um primeiro longo atraso do período. Ficou muito agitada e feliz com a possibilidade da tão desejada gravidez. No dia de fazer o seu teste, 5º dia de atraso, teve uma hemorragia e aí Anita cedeu. Começou um processo de depressão onde a conheço, e cujas queixas e perguntas  já ouvi de muitas mulheres na mesma situação:

  • Culpa – “o que está de errado comigo? O que fiz de errado? É o que bebo, o que como? É porque fumo? É porque trabalho demais? Sou velha demais?”
  • Porque não eu? – “a cada mulher grávida que vejo, sinto-me mal, sinto-me inferior, pequena, menos mulher, todas as minhas amigas conseguem e eu não”
  • Dizem-me que se eu parar de pensar nisso, talvez aconteça – “como faço para deixar de querer ou de pensar em algo que é o que mais quero?”

Anita entrou numa espiral de confusão, culpabilização, que a deixou imensamente triste, sentindo-se uma mulher diferente, incompleta. Por consequência, este estado  afastou-a do marido,  deixou-a fisicamente doente, o que a fez culpar-se ainda mais, entrando num ciclo negativo. Quando chegou até mim  já punha em causa o desejo de ser mãe, o casamento e a si mesma enquanto mulher.

Fizemos um longo trabalho que incluiu a abordagem EMDR – trabalhámos a situação anterior do aborto espontâneo e percebemos o quanto tinha sido traumática, deixando medos e tensões que não são produtivos no processo. Também utilizamos o EMDR para aceder a situações muito precoces na sua vida, onde ela tinha interiorizado crenças negativas erradas sobre si mesma, como por exemplo, “há algo de errado comigo”. Durante as sessões percebemos o significado que “ser mãe” tinha para ela, e qual seria a forma de se ver como “não mãe”. Reforçamos a sua auto estima, flexibilizamos a sua relação consigo mesma, trazendo assim, a estrutura e estabilidade que estavam a faltar para gerir uma situação tão intensa como a tentativa de engravidar.

António também pôde aproximar-se e puderam em conjunto partilhar como estava a ser a experiência de um e de outro nessa situação. Anita pôde a partir daqui, encontrar ferramentas para dar início ao processo de tratamento especializado de fertilidade. Está nesse processo, e anda na rua de cabeça erguida, mesmo que passe por uma mulher grávida. Já não se sente inferior e pode ficar feliz pela experiência de outra pessoa. Foca positivamente no seu próprio processo, tomando todos os dias decisões construtivas para si mesma.

A questão da fertilidade afeta milhares de mulheres por todo o mundo, criando nelas um enorme sofrimento, sensação de desconexão e solidão. Afeta física e emocionalmente essas mulheres, piorando a sua qualidade de vida e a das suas relações, o que por sua vez, dificulta ainda mais o processo de engravidar. Se está nessa situação, peça ajuda e saiba que tudo tem solução!

Autora: Bia Andrade

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