Um problema de pronome interrogativo

Um problema de pronome interrogativoEste é um problema que consegue bloquear várias pessoas. Vejo-o repetidamente em consultas, e – sabe? – a culpa até é da psicologia… Enfim, da psicologia popular, traduzida apressadamente e pela rama, de conceitos teóricos e científicos que melhor fariam se permanecessem fechados a 7 chaves, para não darem azo a estas interpretações que o podem levar ao bloqueio.

Sabe do que estou a falar? Da necessidade do porquê, crendo-o todo poderoso, capaz de estilhaçar seja o que for que o está a incomodar e a criar problemas. Porque é que eu sou assim? Porque é que reajo assim? Porque é que me aconteceu isto? Na ingenuidade optimista e fé cega de que basta encontra-lo e – voilà! – a vida abrir-se-á à claridade e fluidez desimpedida.

O seu cérebro não gosta da falta de causalidade. Há estudos e experiências curiosos já antigos (mesmo antes de a neurociência vir revolucionar o estudo do cérebro) que demonstram claramente que perante acontecimentos ou situações sem qualquer nexo (porque foram manipulados experimentalmente para serem aleatórios) os humanos encontram lógicas causais, interrelações evidentes, que estão dispostos a defender com convicção.

Também gostamos de nos sentir justiçados, sobretudo quando o que estamos a tentar perceber é a razão de uma aflição em particular. Se soubermos porquê, saberemos que não somos responsáveis e poderemos zangar-nos devidamente com quem de direito. É sempre um alívio!

Infelizmente a vida é aleatória na sua grande maioria, ou tão complexa e multifactorial que é impossível atribuir um resultado a uma causa, de forma clara e certa. No que diz respeito a saúde mental, muito em particular, existem algumas situações que se sabe predisporem as pessoas a determinados problemas, mas “predispor” não é o mesmo que causar. É apenas uma variável que interfere com as probabilidades e que será intermediada por outros factores, externos (por exemplo, suporte social e familiar) e internos (exemplo: temperamento de cada um), numa fórmula gigante cujos componentes totais e respectivas ponderações ainda não são conhecidos.

E mesmo imaginando que chegamos a um ponto da ciência e conhecimento que nos permite dizer que se sente B é porque aconteceu A, de que é que lhe serve sabê-lo? Bom, dará de beber à curiosidade, isso é certo, e algo agradável. Mas resolve-lhe algum problema? Regra geral, não. O que resolve é perceber o “trabalhar” do problema hoje em dia e implementar as estratégias e alterações que – essas sim – se sabe que conseguem reverter a situação. “Como é que saio disto?” costuma ser uma pergunta muito mais valiosa.

E não digo que, nalguns casos, não seja útil ter uma opinião clinicamente informada quanto à necessidade de saber a origem de um tema. Em muitas circunstâncias isso é mesmo necessário. O seu psicoterapeuta será quem melhor o poderá conduzir nesse apuramento: vamos aos “porquês” ou seguimos pelos “comos”? E, se a opinião do seu psicoterapeuta for a de seguir pelo “como” vai sair do sítio onde está e melhorar a sua qualidade de vida, mesmo sem saber exactamente como lá chegou, sugiro que dê uma hipótese à intervenção. Quando um cliente não o faz e insiste em ficar a batalhar no porquê, sem que daí nada resulte de útil, permanece bloqueado. E ninguém consulta psicólogos para se manter bloqueado, verdade? Mas sendo uma dança a pares, convém que ambos estejam a dançar a mesma dança 🙂

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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    2020-08-24T12:20:17+01:00Agosto 24th, 2020|Bem-estar, Madalena Lobo, Psicoterapia|
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