Sim senhor na cadeira

Isto da produtividade é moda recente. E que moda!

Só numa busca pela Amazon, temos mais de 20.000 resultados. No PubMed, que agrega 6.4 milhões de artigos científicos em medicina e ciências sociais, 17% (mais de 1 milhão!) incluem qualquer tema relativo a produtividade. Nada mau para uma palavra que provavelmente nunca foi dita pelos seus avós. Diria mesmo que há uma certa obsessão com o tema. E, como todas as obsessões, com resultados bastante… improdutivos 🙂 Começou por ser movida pelos interesses corporativos, naturalmente, mas foi passando para o léxico de cada um de nós, constituindo-se hoje uma preocupação – agora já é algo que sentimos que ou faz parte da nós, e aumenta o nosso valor pessoal, ou nos envergonha pela sua fraca presença nas nossas vidas.

Sim senhor na cadeiraO tema da produtividade tem vários derivados: gestão de tempo, gestão de foco, gestão de energia, objectivos, planeamento, motivação, estabelecimento de prioridades, distração, compromisso, valores e propósito,… Bem, e já perdi a conta à quantidade de pessoas que nos procuram por acreditarem que têm um problema chamado procrastinação – o adiar sucessivo de uma tarefa. Até já há um traço de personalidade com que se mimoseiam: procrastinadores. Está a ouvir a banda sonora em plano de fundo de um chicote a estalar num auto-flagelo? É que um procrastinador é uma pessoa que avançou umas duas ou três páginas no dicionário da modernidade – os seus avós chamar-lhe-iam preguiçoso… Por isso, vem sempre com a sensação de falha pessoal, algo a ser corrigido rapidamente.

O que nos leva ao tema do mal-estar. Com tanta ênfase na produtividade, como é que é possível algum de nós se sentir satisfeito com um dia de trabalho? Com tanta humanidade que nos assiste, que é outra forma de nos sabermos imperfeitos, o mais comum é deixarmos coisas por fazer antes de desmaiarmos de cansaço na cama ou no sofá da sala. E isto acontece apenas nos dias em que não desistimos logo pela manhã de uma batalha que sabemos perdida.

Sentimos vergonha perante os nossos pares, e perante o mundo em peso tão luzidio de produtividade. Sentimos culpa por não sermos capazes de estar à altura desta exigência de vida. E sentimo-nos inferiores, com uma qualquer peça em falta, porque não conseguimos aplicar nada das técnicas produtivas que – aparentemente – os outros fazem saltar da cartola ao longo do dia.

Vamos lá olhar para isto de uma forma sensata, sim? E comecemos pelo tema das métricas.

Métricas

Mais ou menos produtivo, ou mais ou menos qualquer coisa, requer uma régua bem marcada, aplicada a algo que se possa medir. E isto é o mais puro bom-senso, verdade? Porque já nenhum de nós tem 5 anos e se lembra de perguntar a alguém se gosta mais ou menos dele do que gosta da irmã, por exemplo. Não há régua para os afectos, como não há régua para nada que não esteja objectivamente definido e seja passível de ser transformado numa noção de quantidade.

Então quando acho que produzi pouco num dia ou mês, estou a medir o quê e a comparar com o quê? Numa linha de montagem, daquelas do antigamente, que ainda tinham pessoas, em vez de estarem robotizadas, é fácil medir: quantos parafusos cada pessoa atarraxou por hora. Depois há uns que levam uma medalha para casa e outros a quem se franze o sobrolho.

Para a maioria das situações actuais, de produção mais intelectual, como é que comparamos? Bem algumas coisas andam estudadas (lá está, é moda e ansiedade moderna sabermos como estamos em termos de produtividade). Por exemplo, eu tive curiosidade em ir ver qual o número de palavras que os escritores, em média produzem por dia. Numa análise de 39 escritores famosos, vejo que escrevem algures entre 500 a 10.000.  Como eu ando a escrever 1.000 por dia e não sou escritora, fiquei logo muito contente comigo: sou produtiva! Iupi!!! E então? É fogo fátuo, não? Porque, então e depois? Isso é bom, porquê e à luz de quê?

E um terceiro exemplo: estamos todos numa reunião e temos o colega despachadinho, que faz saltar opiniões e decisões como se fossem pipocas. Produtivo? Depende. E o exemplo admirado por todos de intensa produtividade, reuniões marcadas às 6 da manhã, de tão afadigado que é, soberba no olhar cá para baixo, para os pobres humanos incapazes de lhe chegarem perto? Se um enfarte do miocárdio o fizer parar aos 40 anos, porque a máquina estava a dar-se mal com tanto stress, continuamos a usá-lo como modelo a partir do qual avaliamos o nosso valor pessoal?

Porque não basta saber o mais e o menos, e como nos comparamos. Mais importante é uma noção do propósito da actividade em questão.

Voltemos à nossa linha de montagem. Talvez aquela pessoa que leva a medalha para casa seja a que atarraxa pior os parafusos, que não passam no crivo da análise de qualidade. Se o propósito for atarraxar bem, então a produtividade vista como um conjunto de outputs (o que, para si e para mim, provavelmente são as tarefas riscadas numa lista de afazeres) é algo de muito pouco importante, e talvez convenha voltar a levantar o sobrolho àquele que produziu pouco mas bem. Ou, ainda, talvez o mais importante nas suas funções não seja atarraxar parafusos, mas foi o que ele ou ela mais fez. Talvez nós os dois estejamos a sentir-nos bem com uma lista de afazeres sempre muito bem riscada, enquanto vamos passando ao lado das tarefas verdadeiramente críticas, aquelas que estão no nosso caminho de sucesso e significado pessoal.

E no nosso segundo exemplo? Castigamos a memória do Graham Greene (500 palavras dia) porque a Patricia Highsmith (romances policiais) escrevia 2.000? Malandro do Graham Greene, que foi só um dos maiores romancistas em língua inglesa do século XX… Acha que pensarmos em termos de produtividade fará grande sentido? Sobretudo se vier com um anexo mortífero: a ansiedade de demonstrarmos o nosso valor pessoal, como se houvesse um nível superior e um inferior no que diz respeito àquilo que cada um de nós é, como indivíduo complexo e único e que traz ao palco da vida um conjunto só seu de competências que são importantes para todos os outros, também, poderem funcionar ou se sentirem bem.

Nestes temas de produtividade, tal como em muitos outros, há muitos caminhos que vão dar a Roma. Há pessoas rápidas e pessoas que preferem maturar devagar as situações; há quem seja bom na quantidade produzida e há quem seja bom na profundidade de poucas produções; há quem detenha dezenas de patentes e quem tenha pensado apenas uma coisa nova que apenas mudou o curso do mundo (estou aqui a pensar na internet, por exemplo). Nenhum é melhor do que o outro, porque precisamos destas diferenças. Ser produtivo, nesta definição moderna de fazer muitas coisas, não é melhor nem pior do que não o ser.

Tão diferentes, tão iguais

Sim, somos tão diferentes que usarmos uma métrica para nos compararmos me parece um pouco disparatado. Mas há coisas em que somos bastante iguais – o funcionamento orgânico, de base biológica, nivela-nos sempre.

Por isso, nas sugestões mais recentes que têm vindo a sair sobre estes temas de produtividade, surgem algumas ideias que são interessantes e nos permitem chegar menos cansados ao final do dia, durante o qual tivemos a satisfação de cumprir com aquilo a que nos propusemos. De uma forma geral, de cada vez que estamos a falar de mecanismos relacionados com atenção (um processo neurofisiológico) e com energia (um resultado de processos biológicos) já estamos numa base mais segura, que nos permite colocar em prática algumas acções concordantes com o funcionamento da espécie humana.

Por exemplo, os cérebros humanos não trabalham em multitasking, por isso, tudo o que seja foco único e exclusivo, sem se encontrar dividido por diversas distracções simultâneas, é uma excelente ideia. Não somos como o camaleão, cujos olhos apontam para direcções diferentes, movendo-se independentemente um do outro, e conseguem processar estas imagens diferentes e simultâneas. Dava jeito, mas fabricaram-nos humanos, e é com esta maquinaria humana com que nos apresentamos ao mundo. Por isso, vamos lá usá-la correctamente.

Quer conseguir mais, em menos tempo, e com menos cansaço? Retire notificações de todo o lado, feche-se num canto, ponha auscultadores nos ouvidos se for preciso, resista a todas as tentações e… mergulhe. Regresse só após o tempo previsto, para voltar a aperceber-se que há coisas que mexem à sua volta e o mundo continuou a girar. E dê a si próprio uma recompensa, porque merece, e porque o seu cérebro precisa de começar a conectar as duas coisas: foco e recompensa.

E qual é o tempo que deve ser previsto?  Muita gente é fã incondicional da técnica pomodoro – há apps e timers específicos, tal é a sua popularidade. E é simples e eficaz: reserve 25 minutos de trabalho intenso, colocando um aviso para o final desse tempo. E o que faz quando toca a campainha? Faz uma pausa de uns 5 a 10 minutos, durante a qual se recompensa. E repete. Porquê “pomodoro”? É o nome italiano para “tomate”, e que foi proposto por Francesco Cirillo, na década de 80, porque as suas experiências foram feitas com aquilo que tinha à mão: um timer de cozinha em forma de tomate. Que pena que eu tenho que não tenha sido um português… Consegue imaginar as muitas formas divertidas, à boa maneira do humor luso, com que nos poderíamos referir a esta técnica do tomatinho? Adiante…

Eu disse que repete, certo? E repete quantas vezes? Bom há outras linhas de investigação, que decorrem do trabalho do Anders Ericsson sobre prática deliberada, e que nos dão uma razoável certeza de que o ser humano tem umas 4 horas, e não mais, de capacidade de concentração ao longo de um dia. O resto do tempo será para dedicar àquelas coisas que fazemos semi a dormir: responder a emails, despachar contas e facturas, reuniões de ir acenando com a cabeça (ou cabeceando, nalgumas), etc. Por isso, convém mesmo usarmos bem estas 4 horas que, com a técnica pomodoro, representam umas 8 repetições.

Se não lhe apetecer tanta repetição, e tiver um cérebro muito treinado já em matérias de concentração e foco (e tiver dormido bem, e andar bem alimentado, e não tiver nada de muito importante que o ande a preocupar, e for jovem, seja lá o que isso for) saiba que pode apoiar-se no que se chama de ciclos ultraradianos: blocos de 90 minutos. Aparentemente somos governados, dentro dos ciclos circadianos (as 24 horas, comandadas pelo sol), em blocos de hora e meia – até o sono progride assim, pela noite fora. Por isso ajuste as expectativas: por mais que julgue que está a ser muito produtivo depois de um trabalho continuado de 3 horas, é mentira! A concentração precisa de renovo mais ou menos de hora e meia em hora e meia.

Mas aproveita a concentração em quê? Defendem muitos autores que mais é menos – em áreas tão diversas como o design, a arquitectura, programação informática, e intervencionismo médico. E isto da gestão de foco e energia não é diferente. Corre-nos melhor o dia se, em vez de nos propormos a dispersão de 30 tarefas diferentes, pensarmos naquilo que queremos mesmo conseguir nesse dia, para esse espaço de concentração tão valioso. Há um autor – Gary Keller –  que sugere que nos coloquemos a seguinte questão para aferirmos a prioridade de cada dia: qual é a coisa que hoje não posso deixar de fazer, para que nesta semana não deixe de fazer, para que neste mês não deixe de fazer, para que neste ano não deixe de fazer, para que em 5 anos não deixe de fazer, para que não morra sem fazer?

Não sei se alguma vez consegui (ou tentei à séria) responder a esta questão, mas acho que o simples facto de a considerar é uma boa ajuda a manter o foco.

Espaço para flutuações

Mas reparou que, quando lhe falei em ciclos ultraradianos, fiz umas considerações sobre aspectos que influenciam a concentração?

É fundamental, para não nos chicotearmos, sabermos que a vida tem muitas flutuações e é irrealista pensar que o nosso desempenho, seja no que for, se mantém idêntico no meio de tanta onda. Tudo o que é dito a propósito do bom desempenho é apurado em condições próximas do ideal: para pessoas descansadas, saudáveis, bem alimentadas, sem grandes preocupações, etc. Se for como eu, são mais os dias da semana em que está virado do avesso, do que os dias em que se sente preparado para as olimpíadas da produtividade. Por isso, vamos com calma. Quem dá o que tem,… Sabe o resto, não sabe? O importante é a média, e a vida é uma maratona, não uma corrida de 150 metros. Seja simpático e compreensivo consigo próprio – é muitíssimo mais motivador e eficaz do se castigar porque teve um mau dia ou uma má semana.

Mas o problema é…

Vou continuar a usar o bom senso, pode ser? Se as dicas de produtividade (e que são às centenas) resolvessem o problema, de certeza que não haveria já 1 milhão de artigos científicos e mais de 20.000 livros publicados, certo? Ora vejamos: quantos livros conhece a explicarem como é que se fica lavadinho?… É simples: entra na banheira, liga a torneira, esfrega no corpo qualquer coisa que faça espuma, passa por água e já está. Muito eficaz. Ninguém precisa de teorias extensas sobre o tema, nem de gurus motivacionais a dizerem-nos que descobriram como nos transformar em máquinas produtivas de tomar banho…

Porque é que, no que diz respeito à produção ocupacional não é assim?

Eu tenho uma teoria… Não é que seja muito mais complexo. Garantir que se faz o que se tem para fazer, quando pensamos nisso, assim como quem olha pela primeira vez, é só… enfim… fazer o que se tem para fazer, não é?

O tema aqui é que isso é uma grande estopada 🙂 E a questão a que estes livros e formações dão resposta é: “Se me apetecesse, o que é que contribuiria para eu fazer mais e mais depressa?”. Ora a mim, se me cheira a trabalho, há logo aqui umas células do meu cérebro (repare, não sou eu; a mim, apetece-me sempre trabalhar imenso…) que se viram para outro lado, a ver se encontram qualquer coisa mais divertida. Por isso, quando partimos à descoberta destes livros e formações, a pergunta que está nas nossas cabeças é “Como é que eu faço para me apetecer cumprir com a minhas obrigações?”. Como vê, pergunta e resposta não se encontram. Por isso lemos coisas escritas por pessoas de tanta sabedoria, vamos pensando que é tudo maravilhoso, arrumamos o livro na prateleira, e voltamos à nossa vida de procrastinação e resmungos 🙂

Então, parece-me que a melhor sugestão para melhorar a famosa produtividade é mesmo chamar as coisas pelos nomes, de forma realista e com expectativas bem ajustadas. Trabalhar não é coisa que tenha sido inventado para nos fazer felizes. Sim, quando se trabalha numa área de que gostamos e na qual nos sentimos competentes, que se alinha com os nossos valores pessoais mais importantes, e podemos desenvolver o nosso trabalho com alguma autonomia e controlo pessoal, o desempenho profissional ajuda muito a dar sentido à vida, contribui para o nosso propósito, e é uma fatia importante da realização humana. Mas não se acorda em êxtase ao descobrir que é Segunda-feira, pois não? Isso foi no Domingo, um dia em que não nos sentimos constrangidos pelo peso das obrigações. Somos um bocadinho do contra – se nos sentimos na obrigação de fazer coisas, perdemos-lhes o apetite.

Há, nisto do trabalho, dois tipos de “gostar”: por um lado, um tema de prazer; trabalho não é prazer, e são os prazeres que nos fazem caminhar na sua direcção. Por outro lado, um tema de sentido de vida, algo em que o trabalho é importante, mas que não nos mobiliza de uma forma imediata. O prazer motiva para a acção; o sentido de vida acaba por resultar dessas várias acções.

Então, se aquilo que tenho para fazer hoje não é um tema que se relacione com motivação (esse estado mítico que nos move sem esforço e nos faz atirar às tarefas com gosto), a não ser numa relação inversa, nem começar a fazê-lo me será mais ou menos fácil consoante os conhecimentos que tenho sobre produtividade, muito úteis apenas para quem já ajustou as suas expectativas e sabe que tem pela frente algo que não é propriamente sedutor, o que é que me cumpre fazer? Bem, tenho de começar. Talvez com um suspiro fundo primeiro. E ir-me congratulando com o que já fiz. Depois, então, aplicam-se camadas de técnicas que ajudam na produtividade, mas só para chegarmos ao final do dia menos cansados e com maior sensação de dever cumprido. Somos todos justamente produtivos quando nos obrigamos a fazer o que temos para fazer mas se ficamos à espera de nos apetecer, bem podemos esperar sentados…

Concluindo uma história que já vai longa: o tema da produtividade talvez se resuma, muito bem resumidinha, a esta ideia de que tudo começa com a resolução de sentar o sim-senhor na cadeira e… fazer o que há para fazer, sabendo que não é por apetite, mas porque tem de ser. E o que tem de ser tem muita força 🙂

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2020-09-15T22:15:10+01:00Setembro 6th, 2020|Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo, Prática do dia-a-dia|
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