Sabe que ela não fez por mal?

Dizer que alguém não fez por mal, como forma de branquear um comportamento, era coisa com que eu costumava embirrar. Achava-a uma boa forma de desculpar o indesculpável, passar a mão pela moleirinha de quem não se dava ao trabalho de pensar duas vezes e fazer melhor. Mas isso era quando era nova e não pensava;)  A vida, felizmente, vai-nos ensinando e obrigando a reflectir (normalmente, a vida faz isto às estaladas, mas – também ela – não faz por mal!).

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Aquilo a que se chama princípio de intenção positiva é fundamental na forma como nos posicionamos na relação com os outros, se bem que não seja exactamente aquilo em que está a pensar. Não pressupõe que os seres humanos sejam umas amáveis criaturas, altruístas que se levantam todos os dias movidos pela vontade de construir um mundo melhor. Bom, também não pressupõe o contrário, por isso, esteja à-vontade para assumir o que melhor reflectir as suas convicções sobre a humanidade…

O que o princípio de intenção positiva significa é que, tal como todos os sistemas são adaptativos na sua natureza, também os nossos comportamentos têm (ou tiveram, na sua origem) uma função construtiva, adaptativa, alinhada com interesses de sobrevivência e auto-protecção.

Por exemplo, o medo. O medo é universal e tem o propósito de nos proteger, mesmo se for irracional, com base em interpretações subjectivas da situação ou reacções instintivas. A zanga – um bom combustível de comportamentos agressivos – pode ser uma reacção quando se sente que os limites pessoais estão a ser invadidos. A apatia pode surgir como a face visível de uma sensação de impotência, quando a noção de controlo nas situações nos rouba a esperança num futuro de bem-estar, E por aí adiante. As reacções que cada uma destas emoções provoca, quando está do outro lado dessas reacções, sem conhecer a realidade interna que as está a motivar, é terreno fértil para que as interprete de formas completamente diferentes daquilo que as motivou.

Por isso, perceber que os outros, o que fazem, não fazem por mal, não implica partilhar uma crença ingénua (ou não…) no bom coração alheio – pode continuar a achar que “de boas intenções está o inferno cheio”. Dizer que a intenção serve, ou serviu, um propósito positivo, é dizer que esse propósito fez sentido na realidade, no mapa mental, de cada um. Ainda que possa originar consequências catastróficas, tanto para o próprio, como para os outros. E ainda que possamos discordar com veemência das atitudes, opiniões e escolhas do comportamento escolhido.

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Então serve para quê pressupormos que, lá no fundo, há uma construção útil na base de comportamentos que tanto nos podem irritar, amedrontar, magoar, entristecer,…?

Serve para gerirmos conflitos. Serve para nos pouparmos emocionalmente. Serve para construirmos relações gratificantes e produtivas. Serve como base da empatia. Tantas coisas para as quais serve este princípio!

Mas precisamos, talvez, de um outro conceito: o de estrutura profunda/estrutura de superfície.

À superfície está aquilo que se vê: o comportamento, verbal e não verbal: a reacção do outro. Se nos mantivermos a um nível de estrutura de superfície, as nossas próprias reacções vão ser apenas em relação àquilo que vemos e ouvimos. Por exemplo, considere esta interação:

O resultado já será muito diferente se conseguirmos perceber qual a estrutura profunda e alinharmos a nossa reacção a esse outro nível:

A emoção e as necessidades de cada um, a cada momento, ditam comportamentos de superfície – coisas que são feitas e que são ditas – e que são os únicos comportamentos visíveis. Ao reagirmos a esta estrutura de superfície, estamos a ignorar aquilo que motiva a pessoa com quem interagimos – a sua intenção positiva. E, sobretudo, estamos a perder a oportunidade de cimentar uma relação gratificante e de mútuo crescimento.

E o que nos impede de o fazer? Mesmo, e acima de tudo, em situações tensas e de portas escancaradas para o conflito?

Em primeiro lugar, o facto de não termos consciência dessa intenção positiva a trabalhar abaixo do nível de superfície. E isso deixa-nos presa fácil a diabolizar o outro e a carrega-lo de motivos malévolos, especificamente contra nós. Que é falta de respeito, que não nos preza o suficiente, que quer encostar-nos à parede, que é porque pensa mal de nós,… É só escolher! Mas agora já se pode questionar: na próxima situação difícil com que se deparar, se assumir que aquilo que está a ver e a ouvir é motivado por uma vontade de auto-protecção ou uma necessidade não cumprida ou seja o que fôr muito específico da realidade do outro e que lhe é inacessível, mas cumpre uma função relativa à integridade do outro, o que pode perguntar, dizer ou fazer para reagir de uma forma mais produtiva?

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E, em segundo lugar, também nos complica a vida o facto de cada um de nós ter os seus próprios botões, gatilhos e pontos de dor e sensibilidade… E mais do que às palavras proferidas, reagimos todos, sem excepção – aos ecos que elas criam no nosso mundo interno muito próprio. O que faz com que o distanciamento necessário para realmente ver o outro seja difícil e requeira muito treino. Talvez que, na próxima vez que estiver à beira de palavras agrestes, queira parar um pouco, respirar fundo e lembrar-se que num conflito entre duas pessoas existem sempre, pelo menos, 3 “verdades”: a de cada um e uma visão mais global e objectiva. Por vezes, basta esta paragem, seguida duma tentativa genuína e curiosa de tentar ver a situação pelos olhos do outro, para conseguir retomar a fluidez duma interacção que assim pode prosseguir e manter-se intacta.

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01/05/2019

Auto-análise pura. Sensacional.

Anónimo
12/04/2019

Para mim, este artigo servir para mudar o meu modo de pensar. tenho mania de dizer: não fez por mal. A partir deste estudo tenho uma visão diferente.
Conclui que certo tipo de pessoas com um síndrome do mal por assim dizer, fazem as coisas de mal, para ferir e ou fazer sofrer alguém intencionalmente, e ao dizer o acima, seria como estimular a sua nova táctica para continuar com esse proceder. Muito obrigada.

Cristina Vitória Ferreira
10/04/2019

E o que fazer quando realmente, depois de toda a análise e de ver a situação pelos olhos do outro, chegamos à conclusão que realmente as palavras e atitudes foram para prejudicar o colega?

Margarida
09/04/2019

Fantástico

Lilian
07/04/2019

Muito interessante. Tentar calçar os “sapatos dos outros”, pode ajudar na resolução de muitos conflitos…

Anónimo
Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2019-04-06T16:00:38+00:00Abril 6th, 2019|Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo, Relações|
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