O seu cérebro, mais como o da catatua

Sabe uma coisa extraordinária que tanto as catatuas como os corvos conseguem fazer? Resistir a uma recompensa modesta – mixuruca, diriam no Brasil – na mira de uma recompensa maior.

As catatuas, por exemplo, conseguem esperar quase 1 minuto e meio, com una noz pecã no bico, se souberem que vem aí um caju (de que gostam muito mais). Extraordinário auto-controlo, para não a engolir logo ali!

Os corvos, então, que são considerados os einsteins dos pássaros, chegam a resistir à recompensa menor durante largos minutos. E, a mostrar bem a sua inteligência, ao fim de alguns segundos, colocam-na fora da vista em vez de ficarem ali com a tentação a chamá-los.

Autocontrolo, gestão de impulsos, capacidade de decisão, persistência, auto-motivação,… tudo termos que estão mais ou menos associados a esta simples opção.

Em pássaros!

Bem, e nós? Nós vamo-nos debatendo com alguns temas de adiamento de gratificação, que é como esta capacidade se chama, desde os anos 60. Foi um conceito introduzido por Walter Mischel e o seu famoso teste do marshmallow – dou-lhe a versão curta, no caso de nunca ter ouvido falar. Uma criança tinha os seus doces favoritos à frente e podia optar por esperar que o experimentador voltasse à sala ou não; se esperasse tinha direito a dois doces; mas podia optar por não esperar e, nesse caso, comia apenas 1. Estas crianças andam a ser seguidas há 50 anos, para se apurar se esta competência serve para alguma coisa.

Bem, e os resultados são sólidos: quem melhor consegue adiar a recompensa – esperar para comer 2 em vez de um logo ali – tem mais sucesso em geral, gere melhor os impulsos, regula melhor o stress, e por aí fora. Por isso, a nossa capacidade para trocar o pequeno-agora pelo grande-depois – fazer como as catatuas e os corvos – é uma rica ideia e bom prognóstico de futuro.

De acordo com Walter Mischel há uma guerra interna entre um Sistema Quente (digamos que o nosso diabinho pessoal), emocional e que quer já, e um Sistema Frio (não, não vou dizer anjinho… é mais grilo falante!) que pondera e escolhe com base no cálculo.

O Sistema Quente (Acção) é emocional, simples, na base dos reflexos e animado pela amígdala (estrutura cerebral). Desenvolve-se cedo, desde que somos pequeninos, e ganha força em tempos de stress. Debaixo da sua acção, é o estímulo que nos controla.

O Sistema Frio, por outro lado, é mais cognitivo do que emocional, complexo, reflexivo, lento e tem sede nos lóbulos frontais cerebrais e no hipocampo. Desenvolve-se mais tarde e enfraquece com o stress. Quando agimos sob a sua batuta, somos nós a controlar o estímulo.

E então, agora, o que pode fazer com isto?

Mesmo que o seu início de vida tenha sido mais para o “quente” do que para o “frio”, sabemos que se pode treinar esta competência, o que é o mesmo que dizer que qualquer um de nós pode trabalhar no sentido de uma melhor regulação dos seus impulsos. Como? Bem há várias formas (e todas elas dão trabalho e requerem persistência…). Deixo-lhe duas que decorrem directamente do trabalho de Walter Mischel.

Arrefeça o Sistema Quente

Anda a tentar resistir a comida pouco saudável, substituindo-a por alternativas que levam a um futuro mais risonho? Imagine a comida que não quer mas que lhe apetece, da forma mais abstracta e menos sensorial possível: como se fosse uma fotografia pouco nítida, por exemplo.

Está em dificuldades entre poupar ou estourar o pouco que pôs de lado numas férias de arromba? Pense nas férias, socorrendo-se dos pormenores corriqueiros que fazem parte das viagens: os atrasos, o incómodo da viagem, o calor em excesso, as multidões, etc.

E, claro, quando o impulso para agir atacar, faça como o corvo e distraia-se – remova as tentações do seu foco de atenção, envolva-se nalguma outra actividade que o absorva. Se fôr algo que o impulsione a agir imediatamente, negoceie consigo próprio nem que sejam 15 minutos sem fazer nada nesse sentido; assim, dará tempo ao seu Sistema Frio de se pôr em marcha.

Aqueça as consequências da escolha que não quer

Torne-as emocionais e vívidas, intensamente sentidas em todo o seu fulgor negativo. Nos nossos exemplos:

Na opção comida não saudável, imagine-se com as gordurinhas a mais com que vai ficar, recorde a sensação de enfartado, pense na falta de fôlego quando faz esforços físicos.

Na versão anti-poupança, imagine o resto do ano todo até às próximas férias, a ficar em casa em vez de sair com os amigos, a querer comprar aquele mimo especial que o ajude na travessia do inverno e não o poder fazer.

Lembre-se: neste caso, ser como a catatua ou o corvo é um bom passaporte para sucesso na vida.

Referências:

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2018-09-04T22:02:26+00:00Setembro 7th, 2018|Cérebro, Madalena Lobo|
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