O que não é obsessivo-compulsivo!

A perturbação obsessivo-compulsiva (POC) presta-se a uma série de confusões – com algumas coisas que pertencem à saúde, e não à falta dela; e com outras que pertencem a outras perturbações.

Por isso, vamos lá clarificar alguns temas.

Uma forma de ser

Ser-se consciencioso, organizado, escrupuloso, responsável ou gostar de tudo muito limpinho com cheiro a sabão de Marselha incluído, não significa que se é POC. Significa apenas que se têm preferências na vida e que se tem um modo de funcionar mais assim do que assado.

Ora comece por ver se são claras as diferenças:

Mas também há formas de ser que se consideram patológicas, como a Perturbação de Personalidade Obsessivo-Compulsiva que, partilhando o nome, por vezes se confunde a esta perturbação ansiosa; por isso, esclareci as diferenças neste outro artigo.

Impulso descontrolado não é compulsão

Há uma certa tendência a falar-se de actos compulsivos que não o são. “Ele é um mentiroso compulsivo”. “Ela joga compulsivamente no Casino”. “Ela faz compras compulsivas”. “Ele joga videojogos compulsivamente”.

Nada disto são compulsões. Para além de algumas diferenças que, se eu mas pusesse a explicar aqui, perderia todos os leitores, há a diferença fundamental: as compulsões são actos desesperados para evitar o mal-estar e/ou as consequências de um pensamento obsessivo; todos os exemplos que lhe dei acima são impulsos na direcção do bem-estar. Compulsões visam reduzir a ansiedade; os exemplos visam a procura de prazer.

Ideias estranhas também não

Ideias estranhas, pontuais, e até aflitivas, todos temos de vez em quando. Se fizéssemos concursos disso, teríamos assegurado o sucesso de noites com amigos 🙂

Em 1992, Purdon C. & Clark D andaram a perguntar a estudantes universitários, todos muito bem de saúde mental, que pensamentos intrusivos é que costumavam ter (estes dados foram replicados posteriormente para outras populações e com outros autores). 80% referiu ter alguns (e tenho para mim que os outros 20% não referiram nada porque ou nem se lembraram ou achavam normal algumas das bizarrias que pensavam…). Deixo-lhe um resumo dos mais frequentes:

pensamentos intrusivos

Consegue identificar alguns dos seus pensamentos e imagens mentais que aparecem sem ser convidados, volta não volta, e que o deixam a encolher os ombros e a pensar “mas que parvoíce!”? Pois, não são parte de uma POC – são normais e está tudo bem 🙂

Fixações e manias

De vez em quando passa por compulsão aquilo que mais não é do que comportamento de perseguição: a ex-amores e também a celebridades. Um psicólogo é de recomendar nestes casos, mas não são compulsões aquilo de que estamos a falar. Nem aquelas rotinas mais rigidificadas, coisas que têm de estar arrumadas exactamente naquele sítio, daquela maneira ou sequências de actividades diárias que vão ficando invariáveis. Sobretudo frequentes à medida que vamos ficando mais “crescidos”, criam-se pela força do hábito chegando a criar desconforto (e rabugice…) quando são quebrados, e que mais vale passarem pelas pequenas “manias” que todos vamos tendo.

São da família

E finalmente, desde 2013 que se agregaram outras perturbações específicas sob o chapéu do Espectro Obsessivo-Compulsivo, por se ter considerado que partilhavam algumas características funcionais e assim resultava melhor para os clínicos vê-las agregadas. Debaixo do chapéu, não significa que sejam a mesma coisa, nem que reajam da mesma maneira à forma de tratamento da POC. Quais são elas?

  • Dismorfia Corporal
  • Perturbação de Acumulação
  • Tricotilomania
  • Perturbação de Excoriação

Tudo complexo e, no seu conjunto, estas 4 “valem” uma representação anual na população de adultos de cerca de 9%. Arrepiantemente significativo, verdade? E, tendo em conta a sua seriedade e o caos devastador que todas estas perturbações têm nas vidas em que se instalam, vamos tentar não usar palavras que lhes pertencem, vulgarizando-as noutros contextos, de forma indevida e retirando-lhes importância, está bem?

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2018-08-30T15:27:27+00:00Setembro 8th, 2018|Madalena Lobo, Perturbação obsessiva-compulsiva|
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