O meu cérebro desarrumou-se!

Diz uma menina de 5 anos: “Sabes, mãe? Tenho o cérebro todo baralhado. Tenho lá muita coisa!”

Responde a sua gémea: “Eu tenho o cérebro muito arrumadinho; sinto-me muito tranquila. Sabes o que se faz quando o cérebro está desarrumado, mãe?”

Pede a mãe: “Ensina-me, amor”

E vem a solução: “Fechas os olhos e pensas em coisas muito boas!”

Temos de concordar: estas miúdas sabem umas coisas!

O meu cérebro desarrumou-seEm primeiro lugar, esta capacidade para se conectarem consigo próprias – a autoconsciência quanto a processos internos. Quantos de nós já se foram afastando de si próprios, ensurdecendo para o que se passa lá dentro? Está consciente do que se passa dentro de si neste momento? Dos seus pensamentos? Do fluir das emoções, sempre presentes e não apenas quando dá por elas porque o estão a incomodar? Consegue ligar pontos – isto vem daqui, este é o meu padrão habitual de reacção, sinto/penso isto porque para mim,…?

Sem esta autoconsciência dos processos internos anda-se ao sabor da corrente – sem se perceber a movimentação da vida, sem se saber como aproveitar as suas correntes, sem se perceber as suas próprias reacções ao que acontece em volta, sem capacidade para uma análise crítica em relação ao que se passa dentro de si e que, eventualmente, requeira edição.

Neste preciso momento, o seu cérebro está arrumado ou desarrumado? E como é que isso o faz sentir? E onde sente a arrumação ou a desarrumação? E o que acha que precisa, em caso de desarrumo?

É que arrumar um cérebro é complexo. Bem, talvez não aos 5 anitos, em que toda a vida é muito fácil, mas para si, um adulto, com uma “casa” onde já foi acumulando muita tralha ao longo dos anos, e tem mesmo gavetas e armários que já não abre há uns anos, cheios de inutilidades que ocupam espaço e criam peso, saber por onde começar a arrumar pode ser um quebra-cabeças.

Em psicoterapia trabalha-se a autoconsciência – sem dúvida nenhuma. Para lhe dar o poder da clareza a propósito do que faz e como reage, e para lhe dar a liberdade de abandonar a reacção em piloto automático e poder decidir conscientemente.

E, em psicoterapia, trabalham-se também os aspectos práticos do arrumo – assim como uma Marie Kondo dos arrumos cerebrais (brincadeira minha, claro!).

Será disparatada a solução desta pequenita de 5 anos, quando diz que contraria a intranquilidade com pensamentos sobre coisas boas?

Para decidirmos sobre isto temos de falar de equilíbrio e de excessos. E talvez seja mais fácil começar por este último. E vamos distinguir 3 conjuntos de P’s.

Psicologia Positiva: é um campo de estudo e intervenções em Psicologia que se dedica não à doença, mas às fundações da saúde mental. Apuram-se os mecanismos que estão na base da resiliência e crescimento humano e tudo o que é oposto a “vulnerabilidades”, para que as pessoas melhorem as suas probabilidades de aguentar os inevitáveis embates da vida.

Positivismo: É uma corrente filosófica nascida no século XIX, com várias ramificações desde então, e que, na sua base defende que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro. A sua única relação com Psicologia Clínica é que esta é uma ciência que defende o mesmo: todas as intervenções feitas em consultório devem poder ser defendidas à luz da melhor evidência científica.

Parvalheiras: As várias leis das atracções e seus companheiros… Estas ideias new age fora de prazo de que o bom atrai o bom, de que se acordarmos todos os dias cheios de frases motivacionais que balbuciamos enquanto lavamos os dentes a vida nos vai correr lindamente e seremos eternamente felizes.

Porque é que estou a distinguir isto? Paciência, por favor. Vamos primeiro falar de equilíbrio, sim?

A sociedade ocidental parece definir-se cada vez mais pelos excessos – é como se o botão do volume tivesse vindo a ser girado progressivamente e tudo grita mais alto, de forma mais extremada, mais superficial e mais reducionista. E acredito que isto não é alheio ao facto de se observarem números crescentes de dificuldades psicológicas, tanto em adultos como nos mais miúdos. Já as sociedades orientais colocam uma ênfase elevada em tudo o que é equilíbrio, buscando-o activamente em todos os temas, baseando em noções de equilíbrio as suas próprias intervenções médicas. E quando pensamos em equilíbrio, uma boa metáfora visual é a dos pratos da balança (das antigas, bem evidente) – carregando de um lado, será preciso carregar do outro, para obter o desejado equilíbrio.

Então, vamos voltar aos cérebros desarrumados, sim? Se aquilo que se passa dentro de si sugere activação – energia a mais, um borbulhar interno, muita actividade, seja de pensamentos, seja de emoções – e se essa activação for “negativa” – pensamentos de preocupação, catastrofizações diversas, medo, desesperança – em abono do equilíbrio dos pratos da balança, o que nos cumpre fazer? Ou retiramos peso deste prato carregado de velocidade interna desagradável, ou nos concentramos no outro prato da balança.

Aligeirar peso é sempre muito mais complicado, porque requer que se afastem/diminuam/suprimam fenómenos que são pertença do sistema autonómico, ou seja, que funcionam em regime autónomo, sem a nossa intervenção consciente. Como o bater do coração ou o correr do sangue nas veias – consegue interferir directamente nalgumas destas coisas? Bem, no bater do coração até que se consegue, mas exige algum treino muito específico, e apenas se consegue abrandar um ritmo nervosamente alterado. De forma geral, é má ideia concentrarmo-nos em fazer parar, de forma directa, o que cá vai dentro de negativo ou incómodo, porque a probabilidade de insucesso e consequente frustração são elevados.

Mas ficamos com o outro prato da balança, aquele que permite equilibrar. E aí podemos colocar um sem número de coisas que estão cientificamente validadas (reparou que estou a defender o Positivismo?), e que permitem incrementar os aspectos de resiliência e fundações de saúde mental (e agora estamos em pleno contexto de Psicologia Positiva), resultando uma realidade interna mais equilibrada.

E uma das coisas muito sensatas – tão sensatas que até uma pequenita de 5 anos o sabe – que podemos fazer é aceder a material interno positivo, tranquilizador, e que representa experiência prévia que nos recorda que somos capazes, que temos o que é preciso para lidar com a vida, e que acorda em nós, pelo simples acto do acesso à experiência, emoções de alegria, serenidade, confiança, orgulho, optimismo, etc.

Por isso, da próxima vez que sentir o cérebro desarrumado, faça um favor a si próprio: feche os olhos e recorde momentos bons da sua vida, deixando que toda a experiência o inunde por breves minutos. Vai ver que, quando voltar a abrir os olhos, sente uma maior arrumação interna 🙂

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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    2020-08-27T15:36:30+01:00Agosto 27th, 2020|Bem-estar, Madalena Lobo, Psicoterapia|
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