O cérebro negativo: se puxa para um lado, empurre para o outro

Hoje queria falar-lhe de negatividade. Só de uma ideia, claro, senão tínhamos aqui tratado para vários dias.

Há uma visão simplista, chamado rácio de Losada, ou rácio da positividade crítica, que basicamente diz que quem tem 3 emoções positivas por cada emoção negativa está melhor posicionado na corrida da saúde mental e do sucesso. Veio a lume em 2005 e em 2013 já tinha sido desacreditado como má ciência e sem qualquer fundamento. Nada de estranhar, porque ser simplista e reducionista, neste afã de encontrar a fórmula mágica da felicidade, costuma ser disparatado e muito pouco útil.

Mas há algumas coisas que sabemos e outras que podemos deduzir para nos orientarmos numa vida um pouco mais agradável.

Uma dessas coisas é que o cérebro humano valoriza mais o negativo do que o positivo: presta mais atenção, guarda na memória com maior facilidade e recorda mais rapidamente. O que faz todo o sentido se pensarmos na evolução: recordar o aspecto das bagas venenosas e que quase fui para os anjinhos quando comi uma é muitíssimo mais importante do que lembrar-me que a fruta daquela árvore é mais saborosa madura do que verde. Pelo menos, se a minha espécie quiser atravessar os séculos, das cavernas até este nosso mundo digital, em que podemos perguntar ao Google 🙂

Portanto, estamos programados para um maior peso ao negativo.

Outra coisa que sabemos, muito recentemente, é que a maioria das perturbações emocionais, do foro ansioso e depressivo, partilham entre si pensamentos negativos persistentes. O cérebro de quem está dominado por ansiedade ou depressão demonstra alterações e dificuldades de comunicação entre áreas críticas criando problemas na gestão e controlo destes pensamentos negativos.

Por isso, e desta vez com dados da neurociência, sabemos que o mergulho nos pensamentos negativos não augura nada de bom.

E finalmente sabemos que o que se passa dentro e fora de nós tem tendência a criar espirais – negativas ou positivas, claro. Um afecto, acontecimento, pensamento ou sensação negativos tende a arrastar consigo tudo o resto – se me sinto em baixo, por exemplo, vou olhar para o meu dia de hoje como mais cinzento do que olharia se estivesse bem-disposta. E, como quem procura sempre encontra, vou confirmar esta minha expectativa cinzenta com vários factos acinzentados que, também eles, inevitavelmente nos aguardam em cada esquina. Espirais. Porque os nossos cérebros gostam e procuram congruência.

Portanto, um mal nunca vem só 🙂 E saber que o negativo pode espiralar até às profundezas do inferno é saber, também que podemos inverte-lo numa espiral positiva, se nos afincarmos nesse trabalho.

E então, agora, o que pode fazer com isto?

Repare na negatividade presente no seu dia-a-dia. Repare como vai oscilando o seu pendor para pensar negativo, esperar negativo, falar negativo, sentir negativo. Assim que observar que está a aumentar, pode usar uma de três estratégias:

Compense, trazendo à memória boas recordações, os momentos bons que ainda hoje o enchem de satisfação ou emoções “quentinhas”. Tente equilibrar os pratos da balança: se o seu cérebro lhe serve o mau, ponha na mesa o bom também.

Observe. Há uma grande diferença entre estar enrolado naquilo que pensa, sem qualquer distanciamento, acreditando em cada palavra daquilo que está a ruminar, e ser capaz de dar um passo atrás e se limitar a observar os seus pensamentos. Diga ao seu cérebro: “Estou-te a ver!” 🙂 Experimente ir anotando mentalmente o que está a pensar começando por “Este é um pensamento sobre…”. Em vez de “A culpa disto é toda minha”, pense “Este é um pensamento sobre eu ter a culpa disto”. Grande diferença na forma como essa pedra atinge o charco! Ou, se quiser, na 2ª opção está a ver as pedrinhas a caírem no charco e na primeira opção está a levar com elas em cima 😉

Reformule. Porque há muitas formas de mastigar uma situação. Muitos ângulos possíveis no olhar sobre as realidades. Encontre outras perspectivas que também lhe possam fazer sentido e ser mais interessantes, úteis, neutras ou, até, positivas. Em qualquer caso, que sejam perspectivas realistas e que lhe façam sentido. Pensamento a pensamento, irá enriquecendo o seu mundo interno e desfazendo as espirais negativas que se queiram formar.

Referências:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23855896

http://assets.csom.umn.edu/assets/71516.pdf

The upward spiral, Alex Korb, PhD

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2018-09-04T20:03:30+01:00Setembro 5th, 2018|Cérebro, Madalena Lobo|
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