Isto de ter uma obsessão é o quê?

“Ando obcecado com esta apresentação que tenho de fazer”

“Ela é obcecada com ele”

“Tenho esta obsessão com uma viagem à Ìndia”

Fartamo-nos de usar palavras que, tal como esta, vêm da Psicologia e definem temas sérios, mas fazêmo-lo de uma forma ligeirinha, que lhes vai retirando a sua densidade. E acabamos por não saber do que estamos a falar… Nada do que está acima, por exemplo, se refere àquilo que, em Psicologia, é uma obsessão.

As obsessões fazem parte do par que dança na Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC). Ter uma obsessão é, na prática e pela raíz latina (obsidere), estar sitiado, cercado – e poderíamos dizer, também, esmagado – por algo que, neste caso, é um acontecimento interno de natureza cognitiva (por oposto a emocional).

São pensamentos, imagens mentais, ideias, angústias, dúvidas, impulsos ou uma combinação disto tudo, que aparecem vindos do nada, se intrometem no plano de consciência, atingindo a pessoa com violência, com uma sensação de iminência, de verdade e possibilidade.

Isto de ter uma obsessão é o quê?

Isto de ter uma obsessão é o quê?Imagine o pior que pode imaginar, o que mais impressão lhe faça, o que mais o possa encher de aflição – daquelas coisas que basta o início do pensamento para o fazer estremecer como que a tentar enxotar a ideia, expurgá-la de si. Agora imagine que esse pensamento o toma de assalto várias vezes por dia, ficando, às vezes, durante horas, colado na sua cabeça. Que tenta empurrar, afastar, esconjurar, sem qualquer resultado. Que o deixa preso na aflição interminável, insuportável.

Começa a ter uma ideia do que é uma pessoa com POC sofrer de obsessões?

Estes acontecimentos mentais não têm nada de voluntários. Aliás, as pessoas com POC fazem de tudo para os evitar e afastar o que, aliás, é um dos grandes problemas da situação, que faz com que se mantenha e piore. Porquê?

Ora faça este pequeno exercício:

Nos próximos 3 minutos vou pedir-lhe para fazer tudo o que possa para não pensar numa girafa azul, e se lhe aparecer alguma imagem ou pensamento relacionado, empurre-o para fora de si e da sua consciência. Preparado? Comece!

Em que reparou? Surgiu-lhe alguma girafa azul? Se sim, tem noção de quantas vezes isso aconteceu?

Agora, nos próximos 3 minutos, deixe que o seu pensamento faça o que quiser, que as ideias e imagens mentais fluam livremente por onde quiserem e se lhe surgirem girafas azuis limite-se a observá-las, como parte da sua paisagem interna de pensamentos. Vamos a isto? Comece!

Em que reparou? Qual foi a importância e força que sentiu em qualquer pensamento que lhe tenha ocorrido sobre uma girafa azul?

O que retira desta experiência? Talvez que é impossível reprimir pensamentos e tentar bani-los da consciência? Que quanto mais controlo se tenta exercer, mais o efeito é contrário?

Mas deixar que se passeiem dentro de nós imagens feias, impulsos daqueles que nem ao próprio diabo os confessaríamos, pensamentos do pior que poderia acontecer, para cada um de nós??? Bem, no mínimo, não é coisa que nos passe pela cabeça fazer, verdade?

Mentira!

Para si, que não tem perturbação obsessivo-compulsiva. Sobe-lhe um arrepio pela espinha acima, enxota a mosca e não pensa mais nisso. E como é que eu posso estar aqui a dizer uma coisa dessas?

Porque há estudos a demonstrar que, pelo menos 80% das pessoas têm pensamentos intrusivos estranhos, fora de contexto e que lhes dão um calafrio. Mas apenas 1.2% têm POC. E isto acontece porque a valorização é diferente. Nós os dois, que não temos POC, achamos, lá no fundo, que isto de se nos passearem ideias cá dentro para as quais não temos enquadramento é uma espécie de lixo mental, irrelevante (ainda que mal-cheiroso). E deixamos esses pensamentos entrarem e saírem sem mais história que permaneça. Em alguém que desenvolve uma POC, o facto de esses pensamentos terem aparecido tem significado. Qualquer coisa quererá dizer… Que significam que é uma pessoa capaz de cometer os actos expressos nesses pensamentos; que é uma pessoas com tendências e inclinações em conformidade com eles; que o facto de os pensar aumenta a probabilidade de os executar; que o simples facto de os pensar pode fazer com que magicamente as coisas aconteçam,…

Não acredita em mim? Parece-lhe uma coisa própria de mentes estranhas e diferentes de si? Então proponho-lhe outro exercício. Este até pode ser daqueles sociais, a fazer num jantar de amigos ou lá no café com os colegas de trabalho. Primeiro responda a esta pergunta: Acha que os seus pensamentos são mágicos e têm o poder de fazer acontecer coisas? Se respondeu que sim, marque consulta comigo, porque é provável que sofra de POC. Se respondeu que não, prossiga.

Escreva numa folha de papel a pior coisa que poderia acontecer a alguém – a mais horrífica, mais macabra, mais lúgubre e pavorosa (afinal de contas, há que dar bom uso a esses CSI todos que já viu na vida). Já está? Agora acrescente a frase “vai acontecer a:”. Fez? Agora acrescente o nome da pessoa mais importante da sua vida.

Deixo-lhe uns minutos para se debater com a náusea… Com o debate interno. Com a resistência e a mão que não lhe obedece…

A maioria das pessoas não consegue fazer isto. Ou, se o faz, a seguir queima o papel ou rasga-o em pedaços minúsculos. Ou se se faz de forte, e há uma vontade férrea que consegue fazê-lo aderir à mais básica racionalidade, fica com um mau sabor na boca durante um bom pedaço de tempo.

Por isso, o que podemos dizer? Os pensamentos de natureza obsessiva podem parecer bizarrias de pessoas diferentes das que não têm POC, mas, na verdade, fazem parte integrante da nossa vivência mental. Todos nós temos pensamentos estranhos que se intrometem e arrepiam e todos nós, na hora da verdade, ficamos presos em crenças mágicas.

Mas para quem não tem POC, tudo isto são nuvens passageiras, de que nem ficam traços de memória. Já para quem tem POC são os temas que dominam o que lhes ocupam a mente, repetidamente, durante horas angustiantes. Verdadeiras obsessões. E as compulsões acabam por ser actos irresistíveis que visam desfazer (magica e/ou excessivamente) o “mal que pode ser feito” pela ocorrência do pensamento.

E as obsessões costumam referir-se a que temas?

Em primeiro lugar, deixe-me dizer-lhe que lhe fui falando das obsessões arrepiantes, porque é mais fácil explicar o que se passa na POC usando estes exemplos. Mas há todo um conjunto de obsessões que se referem mais ao desconforto de algo que não está bem – o que dá origem sobretudo a comportamentos compulsivos de ordem e simetria, perfeccionismo e verificação.

Os temas – os conteúdos específicos – das obsessões são infinitos.

Variam com temas da importância de cada um – por exemplo, para uma recém-mãe, os temas que se relacionam com a possibilidade de fazer mal ao seu bebé são ocorrências habituais.

Variam com temas geo-culturais – por exemplo, temas religiosos, como o medo de proferir blasfémias, são habituais nos EUA (provavelmente mais concentradas naquilo que é designada pela sulista “cintura da Bíblia”), mas raras aqui por este Portugal de uma religiosidade mais despreocupada.

E variam com temas da moda histórica – por exemplo, no pico da preocupação com HIV e Sida, o afluxo ao consultório de pessoas com POC assaltadas por obsessões de contaminação do vírus era elevado.

Aliás, este tema historico-cultural dominante acaba por nos ser útil para perceber que há registos de ocorrências POC desde o século 14, quando a Europa estava subjugada pelos temas de religião que se impunham a tudo e todos (quanto mais não fosse, porque as fogueiras mantinham o tema muito presente…). E por isso, conseguem-nos chegar relatos de fervor obsessional religioso daquilo que, na altura, se chamava escrupulosidade. A POC está longe de ser uma invenção moderna, apesar de só a partir da década de 70 se ter começado a fazer alguma ideia quanto à melhor forma de a tratar… Antes disso, lá pelos séculos 17/18, ainda se tentaram umas purgas, sob a forma de sangrias para erradicar os “maus pensamentos” (a flebotomia começou com os Egípcios lá para o ano 1.000 AC, virou moda com os gregos antigos, e foi o tratamento de tudo e mais alguma coisa até bem depois da Idade Média). Escusado será dizer que não funciona, por isso, guarde lá a faca que não vale a pena 🙂

A NICE (National Institute for Health and Clinical Excellence), importante organismo que fornece directrizes de tratamentos para o sistema nacional britânico de saúde, publicou, em 2005, um apanhado das obsessões mais frequentes de pessoas com POC:

frequência de obsessões

Mas, claro, já sabemos que podem ser infinitas e que variam com os tempos e as geografias, por isso, deixo-lhe este gráfico apenas como um exemplo, que vem vestido da mais alta credibilidade, não vá pensar que me pus a inventar coisas 🙂

Se tem obsessões, peça ajuda qualificada. Se conhece alguém sob o peso da perturbação obsessivo-compulsiva, insista para pedir ajuda qualificada. Se não tem nada disto mas acha que lhe convinha falar com um psicólogo, peça… Já sabe o resto 🙂

Fico aqui. Para quem tenha obsessões, POC ou seja o que fôr.

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2018-08-30T12:56:37+00:00Setembro 6th, 2018|Madalena Lobo, Perturbação obsessiva-compulsiva|