Importa-se de me ver?

Importa-se de me ver?A partir aí de meados dos 60, comecei uma viagem de transparência. Foi, mais ou menos pela altura em que me apercebi que se me colava um rótulo de idosa. Melhor dizendo, colavam-me; porque eu sou… bem, sou eu. Pessoa, adulto, funcional, dona de uma vida, interiormente, às vezes, até com uns laivos de gaiata. Idosa? Mau! No princípio, ainda me encantaram alguns benefícios como o de já não ter de andar a mando do despertador, ver os netos quando apetecia, ter vagar para as minhas coisas e até os descontos nas exposições.

Mas depois, devagarinho, comecei a perceber que, cada vez mais, quando olham para mim já não me estão mesmo a ver. É como se a minha presença fosse perdendo a solidez no campo de visão dos outros. Como um desenho que primeiro perde a tridimensionalidade, depois as cores, até que o próprio traço se esbate em linhas incertas.

Porquê, não sei. Sei que estou lá, com toda a força da minha existência. Está bem!… Interajo um pouco menos. Mas apenas porque o meu cérebro processa a informação com menos velocidade – ainda eu estou a acabar de processar o que ouvi e já o meu amigo está a mudar de tema. A vida saboreia-se mais do que se engole, quando se entra nos tais de anos dourados (uma designação, no mínimo, irónica, não acha?). Também não ajuda ir recolhendo a impressão de que me escutam com aquela sobranceria de quem não atribui valor ao que está a ser dito… Ou, pior, com a condescendência de quem acha que são tontices desarticuladas pelos anos. Aqui do meu ponto de vista, começo a perceber que, nos tempos que correm, a partir de uma certa idade, o valor das opiniões é inversamente proporcional à experiência que as baseia – vai da sabedoria à irrelevância, enquanto o diabo esfrega um olho. Por isso, calo-me. Nos dias bons, claro, porque, nos maus, tornei-me rezingona. Não que o admita em voz alta, claro, mas apercebo-me da crescente acidez interna (será que o pH se modifica com a idade?). E sim, eu sei que é mais fácil achar que eu não estou bem, do que dar-me razão, mas pense um pouco nisto antes de me acenar com médicos.

A história anda a ser escrita por quem apenas pode imaginar como é estar numa pele que se enruga. Todos se lembram do que foi serem crianças ou adolescentes e muitos já se conseguem lembrar da energia vibrante do pico da idade adulta. Mas quem pensa, fala, comenta, avalia e até trata as 3ª e 4ª idades, ainda lá não chegou. É como um invisual que dá o seu melhor a descrever um quadro. Ainda por cima, entra em jogo a resistência de cada um, em se imaginar nesse ponto – os seus próprios medos, se não por si próprio, pela angústia de se confrontarem com a ideia da curva descendente dos seus pais. E junta-se a isto a dificuldade que todos temos (sim, até eu, que já deveria ter sabedoria) em perceber que há muitas “normalidades” e que só porque algo é diferente não quer dizer que esteja errado ou doente.

Só porque me apetece estar mais quieta e recolhida sobre mim, isso não significa que esteja deprimida. Imagine que o seu filho adolescente achava que tinha de andar a antidepressivos só porque a si já não lhe apetece ir para noitadas barulhentas até às 6 da manhã. Não lhe faria muito sentido, pois não? Em cada fase de vida, há contextos diferentes e todos têm um lugar que se inscreve no contínuo da normalidade e saúde humanas.

Há uma linha fina a separar a preocupação comigo das imposições ofensivas. Desculpe, mas há, e mais vale que lho diga, enquanto o traço que me desenha ainda consegue impor-se, por cima da progressiva falta de autonomia, que me castra a assertividade. Quando insiste que eu tenho de ir para a universidade da 3ª idade, inscrever-me nas aulas de pintura, fazer ioga e sair de casa todos os dias para passear e ir ter com os amigos… Eu sei que é pela dor de me ver desacelerar progressivamente, pelo medo que me esteja a desligar da vida. Mas preciso que compreenda que me doem os pés, me canso com facilidade, tenho medo de cair na rua e… me estou nas tintas para a arte no século XVII. Gosto do meu sofá, da minha calma, que me dá vagar para mergulhar nas memórias. Porque não sabe – ainda! – que as memórias antigas vão ficando mais frescas com o passar da idade, e eu ando a reencontrar-me com o meu baú das recordações. Sim, porque se ando esquecida, é das irrelevâncias do passado recente. Só porque não me lembro do que me disse ontem, não seja tão rápido a diagnosticar-me com demência precoce – pode ser apenas pouca atenção às coisas pequeninas… Isso, e o facto de a memória de acontecimentos recentes não ser valorizada pela fisiologia nesta etapa de vida. Sabe o que seria uma grande ajuda, em vez de ir a correr meter-me numa máquina de ressonância magnética? Dar-me o seu tempo, escutando as minhas reminiscências, interessando-se pelo meu passado, valorizando o que eu penso e sinto. Isso – pode ter a certeza – faz-me bem a mim e enriquece-o a si.

Claro que percebo o cuidado e o medo de quem gosta de mim – a cada momento, aquilo que faço ou digo pode ser sinal de agouro. Mas vamos carregar mais no pedal da empatia, e travar um pouco a rapidez a engolir comprimidos. Não há comprimidos que corrijam a idade e parece-me, que muitas vezes, se anda a confundir “idade” com “doença” – que não são sinónimos em nenhum dicionário. Gostava que avaliasse com sensatez se a forma como me comporto não será apenas um reflexo de uma etapa de vida que os mais novos ainda não tiveram oportunidade de compreender totalmente. Até porque medicação já eu tenho, para dar e vender: os comprimidos do colesterol, os da hipertensão, mais os cor-de-rosa, os azuis e os amarelos, que já me esqueci para o que são… Se lhes juntamos antidepressivos, ansiolíticos e sei lá o que mais, deixamos todos de saber se as alterações que sinto, e vê em mim, são da doença ou da cura. Isto de medicamentos é complicado… têm efeitos secundários e, ainda por cima, interagem uns com os outros e criam fenómenos muito embrulhados. É por isso que, como meu cuidador, eu gostava que só insistisse comigo quando é mesmo certo que são necessários. Pode ser?

E há uma coisa importante em que pode ajudar: não desvalorize o que lhe parece ser um pequeno impedimento da idade. Dá por si a ter de levantar a voz para que eu o ouça? Sugira-me um teste de audição. É que basta andar a ouvir mal, para que, devagar e sem que eu me aperceba claramente, eu comece a afastar-me de situações sociais, me instale num isolamento progressivo, e – aí sim – temos um problema. Ou ajude-me a encontrar o médico certo para ver o que se passa com as dificuldades de circulação nas pernas, que faz com que me queira mexer cada vez menos. Ou a encontrar sapatos adequados a quem já tem o pé fragilizado e sensível à dor. Estas pequenas coisas que podem ser endereçadas e corrigidas são, muitas vezes, a base de misteriosas depressões para quem, como eu, já soma anos à vida.

Tente encontrar-se comigo no sítio onde estou. Estique a imaginação para sentir o mundo como eu o sinto; imagine que o vê com menos definição, ouve mais ao longe, tem um tempo de reacção cerebral um pouco menos rápido; que se mexe com mais dificuldade, que a dor é uma companheira habitual; tem menos paciência para frivolidades (que, a si, que as vive pela 1ª vez lhe parecem importantes), sente que não o valorizam e a sociedade não tem um lugar para si; tem outros interesses e muito menos optimismo no dia de amanhã (cheio de potenciais más notícias), e que o dia de hoje tem riscos para mim que, para si, não existem.

Se, depois de fazer este exercício, com consciência, achar que eu possa mesmo estar clinicamente deprimida ou ter sinais neurológicos que lhe pareçam ser de alarme, então sim: fico-lhe grata se me apoiar, sugerindo-me ou levando-me ao psicólogo, neurologista ou médico de família.

Caso contrário, respeite-me na minha diferença etária e tente facilitar-me a vida. Temos um funcionamento diferente, e tem mais autonomia e resiliência do que eu, por isso, fica do seu lado adaptar-se a mim e ao meu mundo vivencial. Olhe para mim e veja-me! Interesse-se genuinamente, dedique-me algum do seu tempo e atenção, e vai ver que o seu interesse me vai fazer parecer muito mais alerta e bem-disposta.

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08/10/2019

Adorei e concordo plenamente. Ainda não estou na classificada “3ª Idade”, mas orgulho-me de ter trabalhado 25 anos com idosos, e já ter e defender, uma visão deste género. Durante esse período muito investi nos cuidadores diretos, e na perspetiva de olhar para uma pessoa de idade avançada, como PESSOA, com uma história de vida a saber e a respeitar!

Isabel Almeida
05/10/2019

Acho que têm toda a razão, os problemas da idade podem não ser uma doença, e quem nos rodeia, sobretudo os mais novos, têm outra velocidade, não se interessam pelo que de maior conhecimento de vida temos, os médicos querem encaixar-nos em actividades de relacionamento social e inter-activo, quando a maior parte das pessoas está interessada no seu próprio bem-estar, que muitas vezes não coincide com o nosso, que é mais interiorizado e diferente. As diferenças podem ser partilharas com amigos e família que nos conhecem bem e nos ouvem. E a nossa idade requer muita calma e repouso para olharmos para dentro de nós próprios e descobrirmos o que realmente queremos. Se calhar, é só isso, calma e repouso, depois o resto vem por acréscimo. A solidão não é um problema para mim, é a minha companhia ideal. Preciso de estar só, que não me digam como devo agir, de melhor procurar os outros, quando deles necessito. É uma forma de vida livre e com o seu tempo próprio. É paz.

Maria João Neves Consiglieri Pedroso
03/10/2019

Excelente texto. Não focou exclusivamente a funcionalidade, direcionou o olhar para o que mais importa: as necessidades pessoais de uma pessoa!

Sueli FariaThomaz
03/10/2019

Excelente ! Verdadeiro, profundo e muitissimo actual. Muito obrigado por me oferecerem a possibilidade de me deliciar, rever e me comover com este vosso texto absolutamente fantastico. Muito obrigado !

Ferreira de Carvalho
03/10/2019

Mesmo muito realista. E fez-me ver o mundo com outros olhos.

estelaafonso@gmail.com
Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2019-10-02T13:02:09+00:00Outubro 2nd, 2019|Bem-estar, Família, Madalena Lobo|