Gerir as probabilidades da resiliência

Gerir as probabilidades de resiliênciaDigamos que está a planear um dia bem passado na praia. Marca-o para Agosto ou para Janeiro? Bom, claro que a resposta é diferente consoante esteja no hemisfério norte ou sul, além de que há meteorologias para todos os gostos, mas a questão é que o seu cérebro faz um cálculo rápido de probabilidades: qual o mês em que é mais provável ter um dia bem passado na praia. Os nossos cérebros fazem cálculos matemáticos extraordinários, em milissegundos, e sem que tenhamos de agarrar numa máquina calculadora. Por exemplo, quando conduz ou mesmo apenas anda, estão a correr internamente programas sofisticados – matemáticos, mecânicos, físicos,… – que lhe permitem calcular quando deve travar e com que força, qual o ângulo em que deve virar, qual o tempo que resta antes de embater no muro, tendo em conta a velocidade actual, qual a sua velocidade relativa à velocidade dos outros,…

Para todos aqueles que se acham de fracas competências matemáticas, tenho a dizer-lhe que, felizmente, o seu cérebro não é da mesma opinião. O seu cérebro faz coisas extraordinárias, a cada segundo, sem que se aperceba disso. E ganha e perde capacidades também sem que se aperceba disso, o que é pena, porque de outra forma todos teríamos um pouco mais de atenção à saúde aqui da nossa cabecinha 🙂 Talvez passássemos menos tempo a pensar se a rúcula é melhor do que a alface, ou se o spinning nos faz melhor do que o ioga, e mais tempo a pensar como manter o cérebro em boa saúde.

Tendo em conta a enorme complexidade dos processos cerebrais, o cérebro é uma máquina de gestão profundamente eficiente – não se pode dar ao luxo de estar a gastar energia naquilo que não é usado, por exemplo. Por isso, faz uma monitorização constante aos processos que estão a ser utilizados e reforça-os; e para os que deixou de utilizar, inactiva as conexões internas. Este mecanismo – de reforço e robustecimento do que é usado, e corte do que não é usado – percebe-se muito bem fazendo a analogia com um músculo: músculo que é trabalhado diariamente fortalece-se e cresce; músculo que não é usado, rapidamente definha.

Onde é que a analogia começa a patinar? É que um músculo vê-se, mas um processo cerebral não só não se vê, como nem sequer se conhece muito bem quais os processos que estão implicados em que acções de vida. Estou a desafiar mais ou menos o meu cérebro ao começar a aprender cerâmica ou a caminhar num terreno desconhecido com uma sola de sapatos fina e flexível (sim, um dos grandes pioneiros da neuroplasticidade advoga fazê-lo para manter o cérebro jovem)? Estou a desafiar mais o cérebro conhecendo pessoas novas, ou partindo à descoberta de novos percursos perto de minha casa? Ver uma reacção inesperada por parte de alguém que conheço bem é suficiente para criar uma situação de aprendizagem representativa, que ajuda a manter o cérebro em forma?

Sabe-se pouco, infelizmente. Então o que é que sabemos?

Sabemos que o cérebro é plástico. Não, não é desses plásticos infernais que atulham os mares e as nossas esperanças de futuro do planeta. O cérebro molda-se, muda funções quando precisa, altera a sua estrutura – chama-se a isto neuroplasticidade. Nós puxamos por ele, damos-lhe trabalho novo e ele ajusta-se ao que tem de fazer, criando modificações no próprio órgão. A neuroplasticidade e é aquilo que nos permite aprender tudo o que estamos sempre a aprender: desde a matéria para uma disciplina académica, até ao facto de agora sabermos que a nova vizinha é capaz de nos incomodar. A cada minuto que passa estamos a fazer aprendizagens, e isso é possível porque o cérebro vai evoluindo e alterando-se. Mas é muito mais do que isso. É o que permite, por exemplo, a recuperação de algumas funções a pessoas que sofreram um AVC – a área lesionada deixa de se poder encarregar do que fazia e o cérebro, por vezes, começa um processo de mudança para que outras áreas acorram para ajudar e, na medida do possível, se encarreguem também de algumas das tarefas que ficaram incapacitadas. Também é o que permite uma maior acuidade auditiva aos invisuais, uma vez que o cérebro, percebendo que o seu córtex visual está subaproveitado, vai afectar uma parte para reforçar as tarefas do córtex auditivo. Os exemplos são infinitos e ficaram conhecidos com um estudo famoso: o cérebro dos taxistas londrinos.

Para quem não conhece, ser taxista em Londres é tarefa dura – têm um período de formação prática extenso e um exame muito exigente para que apenas chegue a taxista quem conheça muito bem a enormidade das ruas e pontos de referência londrinos. São 3 a 4 anos a memorizar um labirinto de 25.000 ruas – coisa pouca 🙂 Neste estudo que lhe mencionei verificou-se que, após 4 anos de aprendizagem inicial uma área cerebral chamada hipocampo, relacionada com a memória espacial, tinha aumentado significativamente de tamanho. Ou seja, o cérebro, sendo desafiado, modificou a sua forma, para poder dar resposta às solicitações.

Até há pouco tempo, julgava-se que esta neuroplasticidade era coisa da juventude – “burro velho não aprende línguas”. Hoje sabe-se que este é um processo que dura toda a vida ainda que, naturalmente, seja muito mais rápido e abrangente até à idade adulta. E foi só quando se fez esta descoberta revolucionária que foi possível começar a pensar no que seriam, então, boas medidas protectoras do envelhecimento cerebral (que, a propósito, começa na casa dos 30 anos, por isso, não pense que ainda lhe falta um longo caminho para começar a curva descendente). Como é que se aproveita a neuroplasticidade de uma forma que aumente a probabilidade de atrasar o processo de envelhecimento cerebral, mantendo-o tão jovem quanto possível?

Quanto a isto tenho uma boa e uma má notícia para si. E já que há investigação a propósito de qual a notícia que é preferível dar em primeiro lugar, começo da forma certa: com a má notícia. Ainda se sabe pouco sobre o assunto, pelo menos de uma forma definitiva e que nos permita dizer que se fizermos A temos x% de probabilidade de termos uma cabeça muito fresquinha aos 80 anos, e diminuímos em y% a probabilidade de – vade retro! – uma demência. Sempre que vir apregoado que deve fazer palavras cruzadas ou sudoku para manter o cérebro em juventude, desconfie – não há evidências certas de nada disto, ainda que existam alguns estudos nesse sentido e que o mais básico bom-senso nos diga que mais vale mantermo-nos activos com qualquer coisa do que parados a olhar para o vazio. O que temos de certo é um postulado teórico que diz que o cérebro se ajusta, logo temos de o manter activo, com níveis de desafio que lhe permitam manter-se em forma. O que significam esses níveis de desafio provavelmente dependerá de cada um e da sua experiência e forma habitual de exercitar os respectivos neurónios, claro.

A ideia de um descanso morno, feito de inactividade, durante um período de tempo significativo, pode ser uma ideia entusiasmante quando estamos muito cansados ou stressados, mas, em termos de saúde, deve ser equivalente a só comer batatas fritas durante todo esse tempo de contemplação do horizonte.

Bom, e então a boa notícia? Não existem grandes dúvidas quanto ao princípio geral: o de que manter o cérebro em aprendizagem permanente e diversificada o mantém em melhor saúde e mais jovem. Activar a curiosidade e manter o cérebro a trabalhar em coisas novas e diferentes, sejam elas quais forem, estimulá-lo a todos os níveis – esta é a hipótese que tem a maior probabilidade de promover e manter a saúde do seu cérebro. Se juntar a isto uma boa alimentação (o cérebro consome cerca de 20% de toda a energia que vai engolindo ao longo do dia), um sono em quantidade e qualidade suficientes (dormir não é um luxo, mas uma das actividades de saúde mais críticas) e a prática moderada de exercício físico, tem uma fórmula (quase) perfeita para atrasar o processo de envelhecimento cerebral.

E lembre-se que o cérebro não é sede apenas de pensamentos e intelectualidades – não tem de começar à procura de cursos, mestrados e outros temas intelectuais. O cérebro coordena rigorosamente tudo o que acontece consigo – por isso, ir aprender surf, de um ponto de vista cerebral, deve ser pouco diferente do que ir fazer aquela especialização da especialização anterior. Estimular a actividade cerebral equivale a estimular a sua curiosidade e, portanto, pode escolher o que também acresce ao seu prazer de vida (e que, eventualmente, até lhe possa ser útil). Duvido muito que existam fórmulas de tamanho único.

Mas para os que preferem o conforto de maiores certezas (e eu acuso-me já!), há temas/disciplinas/áreas muito mais fáceis de isolar para estudar e investigar. E existem – assim de cabeça, porque serão mais de certeza – três grandes temas que têm vindo a ser sujeitos a estudos rigorosos sobre neuroplasticidade: desde logo, as mudanças de estilo de vida. Lembra-se? Coma bem, durma bem, exercite-se e – muito importante – mantenha a sua vida social e familiar bem nutrida.

Outro é sobre educação e prática musical: a música modifica o cérebro – mais a música produzida do que a ouvida, claro. Da aprendizagem e prática de um instrumento musical, a cantar, o cérebro modifica-se e tudo indica que há boas probabilidades de que contribua para a boa forma cerebral, além de um impacto directo na melhoria da regulação emocional.

A outra área largamente estudada neste contexto é a de aprendizagem de línguas estrangeiras, mais concretamente de uma segunda língua. Estudos sobre a aprendizagem de línguas em crianças já nos falavam das suas vantagens de funcionamento cerebral ao longo da vida, sobretudo ao nível das funções executivas do cérebro (que são, mais ou menos, aquelas que identificamos – bem ou mal – como sinais de inteligência). Se tem miúdos aí em casa, ponha-os a aprender uma segunda língua o mais cedo possível.

Mas começa agora a perceber-se que, em qualquer idade, a aprendizagem de línguas estrangeiras, mesmo por períodos curtos, tem efeito neuroprotector. Por exemplo, há evidência que permite dizer que uma segunda língua ajuda a atrasar até 5 anos os sintomas de demência, incluindo Alzheimer. E 5 anos é muito tempo, medido em qualidade de vida se, por exemplo, tivermos 80 anos.

Mas nem precisamos de falar em temas que nos assustam a todos. Basta falar noutro tema… que nos assusta a todos: o envelhecimento 🙂 A aprendizagem de uma segunda língua ajuda a criar reservas cognitivas. O que é isto de reserva cognitiva? É a capacidade que cada um de nós tem para fazer face a potenciais estragos cerebrais – uma resiliência específica que permite contrabalançar, até certo ponto, problemas biológicos. Quanto maior a reserva cognitiva, tanto melhor conseguiremos lidar com problemas físicos que afectem o cérebro – como o processo de envelhecimento e como as demências.

E deixe-me dar-lhe um exemplo do que uma segunda língua pode fazer por si, que já é crescido. Num estudo que envolveu pessoas dos 59 aos 79 anos, a aprendizagem de uma segunda língua durante apenas 4 meses, duas aulas de 1 hora cada por semana, foi o suficiente para criar melhorias cognitivas em geral e alterações no cérebro, com maior conectividade em determinados pontos. Mas se é português, o mais provável é que já saiba uma segunda língua, porque os portugueses sempre foram um povo desembaraçado a comunicar em línguas estrangeiras, quer por aprendizagem formal, quer porque temos uma história de exposição a outras línguas. Aparentemente, os benefícios também se aplicam a pessoas que já dominam mais do que uma outra língua estrangeira, portanto, que não seja por isso!

Pelo menos, eu aposto nisto pessoalmente 🙂 Falo bem inglês e francês, risco o suficiente em espanhol e italiano, e se franzir muito o sobrolho, sou capaz de perceber umas coisas de alemão (bom, e já dei umas voltinhas em russo e em holandês, mas disso não ficaram traços reconhecíveis na minha memória). Gosto do meu cérebro, ora pois! De o manter fresquinho e em bom estado de conservação. E esse é um dos motivos pelos quais comecei recentemente a estudar mandarim. Se fosse mais nova, justificaria a opção com a força da economia chinesa e com a vantagem competitiva que os conhecimentos em mandarim podem ter num currículo. Não sendo o meu caso, justifico apenas com o facto de ser uma vantagem competitiva para o meu cérebro :).

Há um facto curioso a propósito do mandarim: contrariamente ao português e às línguas ocidentais, o mandarim é uma língua tonal: a entoação de uma palavra é parte daquilo que ela significa. Ou seja, a mesma palavra, em chinês-mandarim pode ter significados completamente diferentes consoante o tom com que é pronunciado. Então, assim de repente, junta-se um tema que pertence à música, com um tema que pertence às línguas: justamente os dois que se encontram estudados o suficiente para nos permitir dizer que ajudam a robustecer o funcionamento cognitivo e atrasar sinais de deterioração cerebral. Usando a mais pura lógica, diria, assim, que aprender mandarim é uma rica ideia! E ainda acresce a estas diferenças específicas à língua o facto de se usarem os dois hemisférios cerebrais para processar mandarim – mais poder cerebral envolvido – enquanto que nas línguas ocidentais mais estudadas é sobretudo o hemisfério esquerdo a trabalhar. Mais ainda? Sabe-se que a prática de mandarim estimula as capacidades de raciocínio matemático, e o desenho de caracteres estimula, também, aspectos de coordenação motora. Ufa! Há muita função cerebral envolvida na aprendizagem desta língua, tornando-a uma grande massagem cerebral 🙂

Faça o que fizer, seja qual for a sua idade, cuide atentamente do seu cérebro: como órgão comanda todos os outros, só temos um, não há transplantes possíveis e qualquer grãozinho de areia na sua engrenagem cria resultados devastadores. E cuidar da sua saúde é simples e existem actividades cuja probabilidade de terem um impacto elevado na sua saúde cerebral agora e no futuro é elevada.

Qual foi o interesse que este artigo teve para si?

0
0,0 rating
0 em 5 estrelas (total de 0 avaliações)
Excellent0%
Very good0%
Average0%
Poor0%
Terrible0%

There are no reviews yet. Be the first one to write one.

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

Marque consulta comigo

    Pretendo: (obrigatório)
    Marcação de ConsultaInformações ou Reunião



    Ao usar este formulário, concorda com o armazenamento e o gerenciamento dos seus dados por este site.

    Load More Posts
    Newsletter 3

    A NOSSA NEWSLETTER

    PODE MUDAR-LHE A VIDA

    • Recheada de informações úteis da Psicologia para MELHORAR A SUA VIDA

    • É GRATUITA

    • GANHA logo um curso de RESPIRAÇÃO CALMANTE

    • Só lê se quiser

    • De PRESENTE, também recebe um GUIA para o conforto do SISTEMA NERVOSO

    • Desiste quando quiser (mas nós ficamos tristes…)

    • Fica a saber mais de Psicologia do que o seu vizinho

    • Ninguém sabe que a recebe

    • Não se arrisca a perder os nossos PRESENTES e PROMOÇÕES exclusivos

    • Sabe tudo primeiro do que os outros

    2020-08-16T12:50:59+01:00Agosto 16th, 2020|Bem-estar, Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo, Resiliência|
    Go to Top