Eu não sou o meu diagnóstico

Eu não sou o meu diagnósticoEm saúde, o tema do diagnóstico é incontornável – seja de saúde física, ou de saúde mental que estejamos a falar. Por isso, e por agora colocando de parte os temas de desenvolvimento pessoal (ou seja os trabalhos em Psicologia Clínica e da Saúde com pessoas que nos procuram para auto-conhecimento e progressivo crescimento pessoal, e não para resolverem um tema de psicopatologia), vamos falar um pouco do lado solar e do lado lunar do diagnóstico.

Se recorre a nós para resolver um problema que se encontra devidamente classificado como sendo de saúde mental é imperativo que seja feito um diagnóstico pelo seu profissional de saúde mental. Tal como é imperativo que o conheça, e saiba exactamente quais são os critérios clínicos que o permitiram fazer.

O lado solar

Contenção

Um diagnóstico permite saber o que tem e – igualmente importante – o que não tem. Vejo muitas pessoas, com processos terapêuticos prévios em que não existiu este cuidado, a passarem algumas aflições pelo medo constante de terem uma coisa que não têm. Por isso, é importante ficar absolutamente claro do que estamos a falar quando fazemos um plano terapêutico e sabermos muito bem o que é, e o que não é – porque “o que é” já dá trabalho e aflições que cheguem…

Assim, uma primeira vantagem de um diagnóstico é que permite conter: isto não é uma grande aflição de contornos irregulares e processos misteriosos, mas sim algo conhecido, que tem inclusivamente uma prevalência conhecida na população em geral. Além disso, sendo constituído por critérios sintomatológicos (para se poder fazer um diagnóstico há critérios rigorosos, escritos nos manuais internacionais, que têm de estar presentes para se poder dizer que a pessoa sofre de X), permite dar sentido a um conjunto disperso de queixas que tem vindo a sentir, julgando-as vários problemas, sem saber que fazem tudo parte do mesmo.

Por exemplo, na Perturbação de Ansiedade Generalizada, não é só a preocupação excessiva e incontrolável com temas do dia a dia. Também tem de ter 3 ou mais dos seguintes sintomas: agitação nervosa, fadiga fácil, dificuldade de concentração ou sentir a cabeça em branco, irritabilidade, tensão muscular, dificuldades de sono. Como vê, é um conjunto aparentemente díspar de situações, todas elas capazes de afectar a sua qualidade de vida e que, a um olho não treinado, parecem uma multiplicidade de problemas – e isso, desde logo, cria maior impotência e mal-estar. Ao perceber que tudo faz parte do mesmo, passa de vários problemas a serem resolvidos para apenas um, o que lhe dá logo uma maior noção de controlo sobre o tema.

Conhecimento

Quem já foi a urgências hospitalares sabe que é pouco ou nada valorizado, neste contexto específico, que o doente perceba o que se passa consigo ou seja colaborante no tratamento imediato. Naturalmente – urgências são urgências. Situações emergenciais, de elevado perigo potencial de vida para quem a elas recorre, e situações extraordinárias, cujo seguimento será feito noutro contexto.

Já a psicoterapia está no pólo oposto a isto. Não se trata quem não quer ser tratado, nem sem a sua total colaboração – o que, desde logo é uma dor de cabeça para alguns familiares, angustiados pela recusa de quem precisa mas bate o pé. O trabalho psicoterapêutico progride numa colaboração estreita entre um psicoterapeuta, com conhecimentos específicos sobre perturbações psicológicas e formas de as resolver, e uma pessoa com conhecimentos específicos sobre si própria, as suas preferências e as suas experiências de vida. Sem um diálogo constante, acordos e compromissos entre estas duas partes, não é possível obter resultados.

Por isso é tão importante que o cliente em psicoterapia seja tão informado quanto possível – e é responsabilidade do seu psicólogo dar-lhe essa informação, objectiva e científica. Aliás, achamos este tema tão importante que o próprio site da Oficina de Psicologia conta com mais de 2.000 páginas, repletas de informação útil e baseada na melhor evidência científica.

Diversos estudos, tanto em medicina como em psicologia, demonstram que uma pessoa informada sobre o que se passa com ela tem melhores resultados decorrentes das intervenções – se eu souber o que se passa comigo, e porque devo fazer o que está a ser recomendado, mais facilmente adiro à terapêutica e, portanto, obtenho resultados melhores e mais rápidos. Dito de outra forma: o conhecimento, em saúde, traduz-se em melhor saúde.

Intervenção

Acredito que, em pleno século XXI, não iria tolerar alguém que se põe com teorias estranhas a propósito do que fazer em situação de mal-estar, verdade? Um encantamento aqui, uma poção mágica acolá, rode 3 vezes sobre si próprio e já agora evite os pingos da chuva porque eu acho que é coisa para lhe fazer mal…

Sabemos que as intervenções são baseadas em evidências cientificamente demonstradas – foram informadas pelas melhores hipóteses teóricas, verificadas em várias pessoas, replicadas em vários estudos feitos por entidades diferentes e analisadas estatisticamente. Quando toma um comprimido, sabe que é aquilo que é recomendado, um pouco pelos médicos de todo o mundo, exactamente para tratar aquilo de que se queixa. E, se perguntar ao médico, ele também lhe dirá um número redondo: qual a percentagem de pessoas que, com esse tratamento aplicado a essa queixa, obtém melhorias.

A Psicologia é igual. Nas perturbações psicológicas mais comuns – quadros ansiosos, depressivos, insónias, comportamento alimentar – existem intervenções que fazem parte das práticas internacionais recomendadas. É certo que admitem muita variação adicional na sua aplicação, porque o ser humano é muito complexo, pelo que as soluções de “tamanho único” acabam por não resultar bem para a maioria. Mas o tronco comum da intervenção tem de conter determinados aspectos/técnicas/formatos – e estes estão estudados, há grandes associações de saúde internacionais que cuidam de os recomendar, e têm uma determinada percentagem de resolução.

E estes planos apenas podem ser colocados em prática se soubermos o diagnóstico. Faz sentido, certo? Precisa saber que tem uma dor de cabeça para saber que é um analgésico que a vai fazer ceder.

Em psicoterapia, tal como em medicina, primeiro avalia-se o que significa a sua queixa e, depois, propõe-se uma intervenção que vai sendo monitorizada para sabermos se está a correr bem ou se requer ajustes.

O lado lunar

Vou deixá-lo entrar num segredo desta classe profissional: há sempre debates acesos entre psicólogos a propósito deste tema do diagnóstico. Se leu até aqui, sabe que eu me junto a um dos lados: aqueles que defendem que, antes de mais, deve ser feito um diagnóstico (ou decidido que não há diagnóstico porque não há perturbação psicológica instalada, apenas mal-estar que se trabalha de formas menos dirigidas e ainda mais feitas à medida). No outro lado, estão psicólogos que se preocupam com o facto de isto poder retirar personalização, uma visão mais global da pessoa que recorreu a nós ou induzir a uma intervenção que atenderá menos às particularidades de vida de cada um, entre outras razões. Sem retirar mérito a estas preocupações, acredito que um bom profissional saberá atender a tudo isto, e, ainda assim, conseguir diagnosticar correctamente.

Mas há um outro lado que, esse sim, que me deixa sempre preocupada: quando o cliente se apropria do diagnóstico e deixa de ser uma pessoa com um problema que requer solução, e passa a ser um problema com uma pessoa anexa em aflição. Ou seja, quando a narrativa de vida se transforma para se tornar no que decorre do estereótipo do diagnóstico. Há-de reparar com atenção na linguagem que as pessoas à sua volta usam para falar de um qualquer problema de saúde. “Eu tenho fibromialgia” é profundamente diferente de pensar ou dizer  “Eu sou fibromiálgica”. O mesmo se aplica a “Eu tenho uma perturbação ansiosa” vs “Eu sou uma pessoa ansiosa”.

Há uns tempos recebi uma pessoa que começava todas as frases com “Nós, as pessoas deprimidas…” – pensam assim, sentem assim, reagem assim. E isto é extremamente problemático – o cérebro adora congruência, por isso, quando se apropria de um diagnóstico e assume total conformidade àquilo que melhor descreve esse diagnóstico, perde-se a enorme complexidade, subtileza e – muito mais importante – flexibilidade do ser humano que pensa coisas muito próprias, reage de formas muito específicas e sente uma riqueza interessantíssima de emoções que fluem a cada momento, com informações úteis e de elevada personalização. E o que se trata são pessoas – não diagnósticos…

Por isso, se recorrer a um psicólogo clínico ou da saúde peça sempre informação: o que se passa consigo, em que o profissional se baseia para o afirmar, que plano de intervenção é que daí decorre, quais as probabilidades de sucesso e o que é que isso significa, etc. Mas nunca – em circunstância alguma – se confunda com o diagnóstico, porque ele não o define como pessoa, nem subtrai ao seu livre arbítrio, nem determina a trama complexa do tudo que faz de si um ser único.

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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    2020-09-01T17:25:20+01:00Setembro 1st, 2020|Madalena Lobo, Psicopatologia, Psicoterapia|
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