E tratar a perturbação obsessivo-compulsiva?

E tratar a POC?Quando se fala de psicólogos é inevitável que as pessoas pensem duas coisas: uma é que vão passar uma hora a falar em cada consulta; e a outra é que vão falar extensamente sobre a sua infância.

E claro que há sempre lugar a falar e a explorar histórias de vida, porque ninguém aparece sentado à nossa frente sem um contexto que mostre o caminho até ter chegado a essa cadeira.

Mas, em muitas das situações de psicopatologia (i.e, quando a saúde mental está em dificuldades específicas e reconhecidas internacionalmente), as consultas desenrolam-se de uma forma muito pouco parecida com aquilo que se vê nos filmes. E, no caso de uma perturbação obsessivo-compulsiva (POC), isto é muito evidente.

A ciência ainda não apurou quais as causas da POC. Por isso, andar a vasculhar no seu passado é, no mínimo, irrelevante para o tratamento. Toda a intervenção está concentrada não naquilo que causou a perturbação (que se desconhece) mas nas suas causas de manutenção – aquilo que se sabe hoje muito bem que está a garantir que o problema se mantenha e se vá agravando.

Por isso, as consultas são sobretudo momentos de discussão conjunta, de explicação sobre aquilo que se passa, de exercícios e monitorização dos exercícios que foram feitos entre sessões, de acordo entre cliente e psicólogo sobre cada passo e resolução das dificuldades que vão aparecendo na execução desses passos.

Isto do ponto de vista da forma como se desenrolam as consultas. E o que é feito concretamente?

Existem grandes linhas orientadores “aprovadas” internacionalmente, por terem demonstrado a sua eficácia na intervenção na POC. A sua escolha e forma exacta de aplicação vai variar de psicólogo para psicólogo, naturalmente, mas eu deixo-lhe a minha forma de intervir, a título de exemplo geral quanto àquilo que pode esperar num tratamento de POC.

Deixo-lhe também uma nota de alerta: a POC é uma perturbação da ansiedade com um grande nível de especificidade e tecnicamente muito exigente. Sendo específica e exigente, é preciso que um psicólogo clínico e da saúde se tenha dedicado a esta perturbação, para saber intervir nela – não basta ser um bom psicólogo, nem ter muita experiência geral. Por isso, se tem POC e recorrer a um psicólogo não hesite em perguntar-lhe qual a sua experiência concreta no tratamento deste problema, e escolha aquele que lhe conseguir afirmar a sua experiência específica neste tema.

Tratar a perturbação obsessivo-compulsiva

É mais fácil explicar o tratamento da POC em blocos ou módulos, porque, ainda que haja uma progressão lógica ao longo da intervenção, esta progressão não é muito linear: volta-se atrás, saltam-se uns passos para a frente, retoma-se do início – ou não – quando há mais do que uma configuração de sintomas, etc.

E, por favor, mantenha presente, que isto é uma ultra-simplificação daquilo que é feito.

Psicopedagogia

Enquadrar, explicar, desmistificar, mostrar as bases neurocientíficas, mostrar como as estratégias que estão a ser usadas fazem parte do problema e não da solução, reflectir em conjunto, esclarecer, e até dar bibliografia específica,…

Tudo isto faz parte da psicopedagogia que, nas minhas intervenções na POC, é estrela. Sabe porquê? Porque a POC é teimosa… Mesmo muito bem tratada, como as pessoas já chegam aos consultórios e Psicologia com muitos anos de prática, os “hábitos POC” já estão impressos como rotinas e caminhos neuronais, e não há como fazer o cérebro esquecer-se de algo que já esteve ao nível do piloto automático. E, por isso, a POC tem tendência a reaparecer, muito particularmente em momentos de stress elevado.

E ninguém o quer dependente de psicólogos, verdade? Por isso, tem de saber tudo muito bem, para que, no futuro, saiba identificar imediatamente os sinais da POC e colocar em marcha os mecanismos corretivos. Aquilo que fui descobrindo com a experiência é que tudo o que invisto em tornar os meus clientes POC verdadeiros peritos nesta perturbação, tem ganhos a duplicar: não só ajuda na prevenção do ressurgimento da POC, como torna muito mais rápido e eficaz o seu tratamento.

Bases teóricas principais: Terapia Cognitivo-comportamental (CBT) e neurociência

Uma nova relação com os pensamentos

O mais visível (e “fotogénico” em filmes e documentários sobre o assunto) na POC são as compulsões. Sim, porque não vemos os pensamentos de ninguém -felizmente- e a componente obsessiva passa-se na privacidade da cabeça de cada um.

Mas sem lidar com as obsessões, não há compulsão que desapareça, porque têm uma relação estreita. O pensamento obsessivo é gerador de forte aflição e as compulsões são o seu “remédio” mais imediato.

A relação que as pessoas com POC têm com os seus pensamentos é especial. Não é aquilo que pensam; por estranho que pareça há estudos a demonstrar que somos todos regularmente assaltados por pensamentos meio “amalucados” (leia-se: sem qualquer contexto que os possa explicar ou dar realismo) e passíveis de gerarem grande aflição. Aquilo que faz com que a pessoa A encolha os ombros perante um desses pensamentos e siga em frente e a pessoa B fique presa num loop infernal de preocupação e tentativa de se livrar deles é a relação que essas duas pessoas têm com os seus pensamentos. Umas acham que são intrusos a que não vale a pena ligar nenhuma ao passo que as outras “compram-nos”, acreditam que significam algo, sobre a pessoa que é ou sobre a sua realidade, que o facto de os pensarem lhes aumenta a probabilidade de ocorrência.

Por isso, uma componente importante, é a mudança da relação que se tem com esses eventos internos, o que é feito com diversos exercícios e, novamente, psicopedagogia.

Bases teóricas principais: terapia metacognitiva e mindfulness

A mudança do foco de controlo

Controlar pensamentos é uma batalha perdida ainda antes de ter começado. E, no entanto, essa é a luta diária de alguém com POC, durante a qual se desgasta a um nível absurdo e… agrava a sua situação. Por isso, há todo um trabalho que visa praticar o abrir mão dessas tentativas de controlo que estão apenas a piorar a situação.

Simultaneamente, aquilo que cada um de nós consegue controlar, por estar sob o domínio do voluntário, são os comportamentos. Não é que seja fácil, mas é possível. E a maioria das compulsões são comportamentais (algumas, as mais difíceis de trabalhar, são mentais). Por isso, desloca-se o controlo dos eventos internos para os externos: com estratégias de diferimento da execução de compulsões, alteração da sua ordem ou momento.

Bases teóricas principais: Exposição e prevenção de resposta (ERP) e Acceptance and Commitment Therapy (ACT)

A quebra do ciclo

Na POC há um ciclo estruturado que garante a sua repetição indefinida: um pensamento ou sensação de algo ameaçador, errado, aflitivo, seguido de compulsões que tentam desfazer essa aflição (estou a simplificar, claro).

Os passos anteriores dão o mote à quebra deste ciclo infernal, integrando-os num todo coerente, no qual a pessoa com POC consegue ver os seus temas como um mecanismo interno feito de processos que não são saudáveis, nem têm significado útil ou realista na vida, e consegue tomar as decisões saudáveis sobre o que fazer em relação aos pensamentos que se intrometem no seu plano mental e fazer escolhas informadas sobre os actos compulsivos.

Bases teóricas principais: as anteriores e os 4 passos de trabalho na POC definidos por Jeffrey Schwartz

Retoma de vida saudável

Tem sempre de haver um cuidado especial neste ponto, porque não seria POC se não consumisse uma fatia importante da vida e do foco atencional das pessoas que dela sofrem. E, por isso, quando se corrige esta situação, cria-se um vazio que tem de ser preenchido com… saúde. As horas passadas em comportamentos ritualizados, o tempo mental passado em torno de obsessões, serão gradualmente preenchidos com fundações de bem-estar que ajudam a pôr em marcha uma espiral positiva na direcção da saúde, técnicas de regulação de ansiedade e stress, e com construção de significado, valor pessoal e propósito de vida.

Bases teóricas principais: Psicologia Positiva (além das anteriores)

E, naturalmente, antes, depois ou durante, têm de ser tratadas outras perturbações que, entretanto, tenham vindo fazer companhia à POC, algo que é muito frequente.

A perturbação obsessivo-compulsiva é tratada de uma forma já muito eficaz, o que significa que se consegue reduzir substancialmente ou eliminar mesmo totalmente a sua sintomatologia perturbadora principal. Por isso, não guarde para amanhã o início de uma intervenção!

Se tiver dúvidas, fale comigo ou marque mesmo directamente na minha agenda uma consulta. E, para quem não o possa fazer já com um psicólogo clínico experiente e especializado, por dificuldades de acesso geográfico ou financeiro, deixo-lhe um começo importante: um manual de trabalho e intervenção da autoria de Steffen Moritz e Marit Hauschildt, que pode descarregar aqui, uma vez que os autores disponibilizaram graciosamente para o grande público. No estudo inicial da aplicação deste manual, 60% das pessoas com POC reportaram melhoras significativas. Depois disso, e em edições subsequentes (3 na versão inglesa, e 2 na versão portuguesa) foram integrados novos exercícios e aprimorada a intervenção, pelo que se esperam resultados ainda melhores.

Atenção: nenhum programa feito sem a condução de um psicólogo clínico qualificado é o suficiente, nem deve ser a estratégia de tratamento a eleger, havendo a possibilidade de suporte especializado. Mas é um começo ou a 2ª melhor opção quando não se pode contar com um psicólogo – ou mesmo um excelente complemento à intervenção psicoterapêutica.

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

Marque consulta comigo

Pretendo: (obrigatório)
Marcação de ConsultaInformações ou Reunião



Ao usar este formulário, concorda com o armazenamento e o gerenciamento dos seus dados por este site.

Load More Posts
2018-09-05T09:59:32+00:00Setembro 5th, 2018|Madalena Lobo, Perturbação obsessiva-compulsiva|