E se o bom desempenho for vesgo?

Aposto que nunca pensou nisto, pois não? 😉 E que numa segunda reflexão, pensa que lhe vou falar de desempenho profissional. Mas não – vou-lhe falar de desempenho no seu sentido mais lato e mais antigo: de algo que se faz, se realiza (por curiosidade: em inglês é uma palavra registada, pela primeira vez, no século XV).

E isso significa que interessa a todos: a quem estuda (desempenho académico), e seus educadores; a quem trabalha, naturalmente; a quem é desportista e a quem desenvolve uma arte, seja ela qual for; e a quem lhe interessa manter e desenvolver o seu desempenho cognitivo – todos nós, portanto.

E se o bom desempenho for vesgo?Todos queremos obter os melhores resultados e estar no nosso melhor, nas várias áreas do nosso funcionamento. Queremo-lo por razões muito próprias e, sobretudo, por razões universais. Quer saber uma dessas razões universais?

Imagine-se na Idade da Pedra (no sentido figurado, que eu não percebo nada de pré-história…). Os humanos, espécie incapaz de sobreviver sem o respaldo de uma tribo, dependem de pequenos aglomerados de outros humanos, para tudo, incluindo para comer e não ser comido. Imagine agora que indispõe os elementos da sua tribo; talvez não tenha jeito para talhar as pontas de pedra para as flechas que vão assegurar o jantar, ou fique sempre com o melhor bife de búfalo. Não melhora o seu desempenho, produtivo e social, e é provável que acabe expulso, atirado para aquele sítio não protegido pelos outros elementos da sua tribo, à mercê de animais selvagens e das outras tribos que carinhosamente gostam de cozer pessoas nos caldeirões. No nosso capital genético ficou escrito a ferro e fogo o perigo inerente à não aceitação por parte dos membros da nossa “tribo”.

É criticado? Perigo. É mal avaliado, por chefe ou colegas? Perigo. Os amigos franzem-lhe o sobrolho e não o convidam? Perigo. Não tem a demonstração de ser considerado um elemento útil nos meios onde se move? Perigo. Lá fora do aconchego das suas tribos profissionais, académicas, sociais, familiares há uma grande probabilidade de acabar como jantar de algo ou alguém.

Esta é a razão mais universal – ainda que, às vezes, muito pouco consciente – que justifica porque somos todos tão sensíveis à avaliação do nosso desempenho e nos esforçamos tanto no sentido da conformidade, em primeiro lugar, e da excelência, como um bónus. Isso e o facto de termos o péssimo hábito de julgar o nosso valor pessoal de acordo com o reconhecimento público. E, pior do que isso, de acordo com a avaliação subjectiva, colorida a negro, que fazemos em relação ao nosso desempenho por comparação com o dos outros.

São todos melhores do que euSou menos. Não sou suficiente. Sou mais pequeno, mais apoucado… Aquilo a que podemos chamar de crenças limitadoras e que, cultivando-as, nos fazem criar o caldinho das profecias auto-cumpridas. Sim, porque se não me entendo à altura da trave, nem a tento saltar, verdade? E não a saltando nunca chegarei ao pódio.

Mas voltemos ao esforço que todos fazemos para ter bom desempenho e nos compararmos favoravelmente com os outros elementos da tribo. Os temas culturais são sub-reptícios – sem nos apercebermos, entram-nos na corrente sanguínea e alimentam-nos o cérebro. E é uma nota cultural forte esta de que o esforço é porta de entrada num céu terreno. Tem vindo a ser destronado, com tanta notícia improvável de milionários instantâneos de 20 anos mal feitos, e talentos que parecem ter surgido por imposição genética – mas isso será cultura da próxima geração. Por enquanto, pelo menos em terras lusas, impera a ideia de que o esforço compensa.

E eu serei a última pessoa a negar esta crença. Gosto dela, tem-me dado muito jeito ao longo da vida, e é uma questão de lealdade a valores familiares. Mas tudo o que perde referências e se torna excessivo, não moderado pela razoabilidade e análise crítica, torna-se irrealista. O que vemos no tecido laboral português já desde há uns valentes anos a esta parte? Jornadas de trabalho de 10 horas e mais. Pior do que isso, vemos também um certo orgulho em fazê-lo, escondido por detrás das olheiras e palavras cansadas. E quando não é o orgulho é a sombra do medo, a sussurrar ao ouvido ameaças veladas, raramente demonstradas, de que não o fazer é arriscar carreira, emprego e sabe-se lá que mais.

Tendo em conta os sacrifícios de família, relações sociais, desenvolvimento pessoal, estar e sentir a vida, será que compensa este investimento no desequilíbrio do papel profissional?

Para responder a esta pergunta temos de voltar ao estrabismo do bom desempenho. Sabe? Parece que está a olhar para um lado, mas está a olhar para outro. Não é o esforço que produz os resultados de qualidade; pelo menos, não o esforço relacionado com horas atiradas em quantidade àquilo em que se quer ser bom. O que, de facto, cria o bom desempenho, seja em que área for, é mesmo o que se passa quando não estamos a “desempenhar”. E antes que me resmungue que estou a inventar, digo-lhe já que, de um ponto de vista de demonstração científica, não há qualquer dúvida em relação a isto.

Vejamos uns exemplos (uma gota de água face às possibilidades) daquilo que estou a dizer:

  • O sono é um dos elementos principais da produtividade e desempenho. Dorme, e a clareza de raciocínio fá-lo obter resultados de melhor qualidade e mais depressa; não dorme, e empastelam-se-lhe as ideias criando resultados de muita parra e pouca uva.
  • Faz pausas intencionais ao longo do dia, para se dedicar a qualquer outra coisa – almoçar com um amigo, ir dar uma volta na rua, pensar um pouco sobre o que quer que seja que o está a ocupar? Volta refrescado ao fim de 5 a 10 minutos.
  • Tem espaço na agenda para se dedicar a temas diferentes do famoso par trabalho/escola-casa? Criam-se faíscas de criatividade dentro de si, à medida que o seu cérebro vai criando inter-relações entre temas diversos.
  • Reserva tempo para tarefas não produtivas, típicas do descanso, como ir ao cinema, a exposições, concertos, conhecer novos lugares? Expande a capacidade produtiva do seu cérebro.
  • Não está a conseguir resolver um problema bicudo? Insiste, e a resposta continua a escapar-se-lhe; vai fazer outra coisa qualquer, e a solução aparece-lhe quando menos espera.

Por isso, pense duas vezes, antes de se permitir que todo o seu tempo vital se esgote na execução de actividades supostamente produtivas. A verdadeira produtividade é aquela que se passa quando está a olhar para outro lado. Naturalmente que, para o fazer, tem que estar disposto a combater as barreiras culturais que franzem o sobrolho a quem interrompe o trabalho para “descansar”. Faça uma experiência de 1 ou 2 meses, assumindo que é como S. Tomé que precisa ver para crer. Saia mais cedo do trabalho e aproveite esse tempo para as coisas que o enriquecem e de que gosta; aumente o tempo que está com os seus contactos sociais; crie momentos de qualidade familiar; leia um livro; vá ver uma exposição; comece um passatempo que sempre pensou que gostaria de ter; faça pequenas pausas ao longo do dia; permita-se parar e olhar de facto para aquilo que está à sua volta; contemplar e devanear; perseguir reflexões que nada têm a ver com o seu modo de vida.

Terminado o período de experiência avalie o seu desempenho. Estou disposta a fazer uma aposta consigo: foi mais produtivo e está mais satisfeito com os resultados qualitativos que obteve. Ah! E está mais satisfeito com a vida, também, coisa que todos à sua volta irão preferir porque satisfação gera satisfação. E lá se revalida o passe de acesso à sua tribo 🙂

6 ideias rápidas

Que pode incluir como rotinas do seu dia, para retirar a cabeça das obrigações produtivas.

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09/05/2019

Mais um artigo enriquecedor e que ajuda a ir mudando o dia a dia para melhor. Obrigafo

Sílvia L.
02/05/2019
Filipa Nunes
01/05/2019

Excelentes ideias e importantíssimos pontos a ter em conta – o trabalho não é tudo e, como se diz, os cemitérios estão cheios de profissionais insubstituíveis… Há que saber apreciar o que realmente importa 😊

Anónimo
01/05/2019
Sileide Leite
Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2019-05-01T19:02:37+00:00Maio 1st, 2019|Madalena Lobo, Performance|