E se neste Natal estiver sozinho?

E se neste Natal estiver sozinhoNenhum ser humano foi desenhado para estar sozinho. Mas a solidão – esse sentimento de não ter com quem contar, nem quem nos compreenda e se importe connosco – tem vindo a aumentar. Porquê? São tantas as hipóteses e teorias sobre o assunto, que apenas sabemos que é… complicado.

A solidão dói. Dói com uma dor funda e desesperada. No extremo, poder-se-á dizer que mata. No Natal, então, em que se celebra o aconchego das famílias e a reunião de quem se quer bem, a solidão é cruel.

Por isso, é importante que cada pessoa que se sinta só reúna todos os pedacinhos de controlo sobre a vida e os use com uma prioridade empenhada em criar laços afectivos, estabelecer e manter contactos, fazer o seu pouco – ou muito – diário de aproximação a outras pessoas com quem possa começar a entretecer relações. E lembre-se que o maior amigo possível começou por ser um estranho, por isso, dê passos para estabelecer contacto mesmo com pessoas que não conhece.

E no Natal, o que pode fazer nesse sentido? Deixo-lhe dois passos para começar já. E uma nota: o Natal não tem por que ser a versão empacotada de anúncio na TV. Aliás, já o é cada vez menos. Crie a sua própria versão de Natal, que se ajuste à sua dinâmica de vida e àquilo de que necessita.

1º passo: mapeie as pessoas que conhece

  • Agarre numa folha de papel. Desenhe círculos concêntricos. Agora, anote o nome de todas as pessoas que conhece, situando nos círculos mais interiores aquelas com quem tem uma relação mais estreita, e nos mais exteriores aquelas com quem menos se relaciona.
  • Circule ou sublinhe com um cor, as pessoas com quem se dá mais rotineiramente; com outra cor, aquelas de quem não sabe nada há um ano ou mais
  • Rabisque uma estrela nos nomes de todas as pessoas por quem sente uma proximidade afectiva especial, com quem se importa e se identifica, com quem gostaria de se relacionar mais, independentemente do vosso histórico
  • Rabisque um círculo junto ao nome das pessoas que sabe ou estima estarem também elas mais sozinhas
  • E, finalmente, risque ou apague aquelas que sente como tóxicas para si e com quem não quer, de forma alguma, ter qualquer tipo de relação, nem fosse ilha deserta e essa pessoa o outro único humano capaz de o acompanhar

Dicas Natal solidão

2º passo: desenhe aproximações a cada um, de acordo com o mapa

  • Comece pelas “estrelas”, de preferência, por aquelas que também tenham círculos: pessoas de quem gosta verdadeiramente e que sabe também elas estarem sozinhas. Que aproximação seria mais adequada para esses nomes, nomeadamente os que se situam nos anéis mais exteriores? Telefonar-lhes (para os que não vê há mais tempo) e retomar ou começar a criar uma relação? Pensar nalgum interesse que vos possa unir e enviar-lhes uma mensagem nessa linha (“vi há tempos xxx e lembrei-me que termos falado que tinhas interesse em xxx”)? Pedir-lhes uma opinião sobre algum assunto relevante para si e no qual essa pessoa possa ter maiores conhecimentos? Ou, por outro lado, oferecer-lhes alguma ajuda que esteja ao seu alcance?… Para chegar a uma relação genuína, gratificante e de confiança é preciso começar com primeiros passos mais seguros e menos intimistas, e ir cuidando da sua manutenção, numa rotina de formiguinha.
  • Que aproximação seria mais adequada para as pessoas que anotou como mais próximas de si? Marcar um almoço ou outro encontro? Demonstrar interesse por elas e pelas situações que sabe que têm estado a viver? Desfazer algum mal-entendido que possa ter ensombrado a relação? Ou apenas mostrar-lhes que são importantes para si?
  • A época é de partilha e de votos sentidos. Comece a tratar dos seus postais de Natal – dá algum trabalho criar votos de boas festas que sejam personalizados e verdadeiros, por isso, não deixe para a última, porque corre o risco de enviar a mesma mensagem para todos os seus contactos, o que só passa uma mensagem de distância afectiva. Talvez até queira mesmo fazer os seus próprios postais – com um bocadinho de jeito, cartolinas e marcadores chegam para criar algo de especial porque foi feito a pensar naquela pessoa e em mais ninguém.
  • Que tal juntar dois ou três amigos, antes da confusão do mês de Dezembro, ou até mesmo em Janeiro, no rescaldo, e desafia-los para um lanche natalício, em que possam partilhar o momento de estarem juntos, sem mais obrigações do que estarem bem uns com os outros?
  • E aproveitar os votos de boas festas para procurar dentro de si os motivos pelos quais pode estar grato a cada pessoa que conhece e dizer-lhes isso mesmo? Não gostaria de receber uma frase de gratidão de ser quem é ou ter feito o que fez, em vez daquelas frases insípidas e generalistas? Dê o primeiro passo e faça-o pelos outros, porque dando-se, recebe-se.
  • Não tem com quem passar o Natal, a véspera ou o dia? Olhe para o seu mapa e procure quem tem círculos. Porque não desafiar para o jantar ou almoço uma ou mais dessas pessoas? Se o Natal é sempre que um homem quiser, porque não há-de ser como e com quem puder?
  • Identifique e contacte organizações que prestem voluntariado a populações carenciadas, hospitalizadas ou, de alguma forma, desenraizadas da sua família. Poderá passar o seu dia de Natal, contribuindo, apoiando, envolvendo-se nalguma acção que esteja planeada junto dessa população?

Para si, que se sente sozinho, e mais ainda nesta época do ano em que se celebram as relações estreitas da família, lembre-se que pode diminuir, nem que seja um pouco, essa mágoa e tristeza. Talvez que fazê-lo o obrigue a sair da sua zona de conforto e a olhar de frente para o medo da rejeição e da desilusão. Talvez isso o faça sentir um frio no estômago e a tensão muscular a paralisar-lhe os movimentos de aproximação aos outros que vão ser necessários. Mas é o que está ao seu alcance e pode controlar. E a recompensa potencial, a possibilidade de voltar a sentir-se no calor de relações afectivas, a sentir o apoio dos outros e uma confiança renovada justificam que aproveite cada oportunidade para deixar para trás a cautela e arriscar a felicidade.

Deixo-lhe um abraço e um desejo genuíno de que neste Natal tenha por presente uma gradual reaproximação afectiva que lhe desfaça a solidão.

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2018-12-05T13:02:32+00:00Novembro 30th, 2018|Bem-estar, Madalena Lobo|
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