É mesmo uma escolha?

É mesmo uma escolha?São uns quantos milhares de decisões que tomamos ao longo de um dia – diz quem já se deu ao trabalho de as andar a contar em estudos. Mas são decisões, de facto? Ui, Deus nos livre! Não haveria reservatório de energia que aguentasse uma coisa dessas. A grande maioria das decisões que tomamos diariamente estão assentes em hábitos, ou são feitas de uma forma mais ou menos automática, gastando pouco ou nenhum combustível cognitivo. Porque se gasta, sabe? A grande velocidade e afectando a qualidade da nossa análise dos temas que temos pela frente.

Nas áreas da produtividade, há mesmo quem advogue que devemos remeter todos os temas não importantes para rotinas pré-automatizadas. Por exemplo, a roupa que vamos vestir (há quem a tenha toda igual e pré-definida consoante as situações), o que vamos comer em determinadas refeições, etc. Quanto mais decisões tivermos colocadas em hábitos, que não nos obriguem a pensar no que vamos fazer em situações comuns, melhor, e menos desgaste temos.

Mas a larga maioria das opções que fazemos num dia só pode ser chamada de decisão, se esticarmos um pouco a corda da sua definição: decidir implica uma resolução sobre um curso de acção após ponderarmos as alternativas. É um processo que nos custa tempo e energia mental – e, por vezes, que nos custa alguma angústia à mistura. Por isso, e no decurso de vários temas que surgem em psicoterapia, prefiro a palavra “escolhas”. É uma palavra que nos remete para algo de consciente, informado, pensado e muito pessoal.

As escolhas, para serem “boas”, devem ser baseadas nos valores e objectivos de cada um. O que significa que não há boas ou más escolhas universais, nem a sua qualidade pode ser aconselhada ou avaliada por outra pessoa. E, por um lado, esta responsabilidade pessoal exclusiva é muito libertadora mas, por outro, é assustadora, porque implica responder à pergunta “O que é que eu verdadeiramente quero?”.

A maioria de nós habituou-se a delegar parte desta responsabilidade ou para temas de conformidade social (“o que é que não destoa em relação àquilo que os outros fazem?”), ou para temas de aceitação por parte de quem é importante para nós (“o que é esperado de mim por parte da comunidade a que pertenço?”), ou para um código de conduta feito de regras que fomos aprendendo e que podem estar mais ou menos actualizadas (“o que é suposto eu fazer? O que devo, quais as minhas obrigações?”).

E isto não é mau – precisamos da aprovação das pessoas que nos rodeiam e precisamos de “encaixar” de todos os pontos de vista, incluindo nas diversas moralidades que se entrecruzam num ditado simples de certo-e-errado. “Mau”, no sentido em que pode resultar mal para a nossa satisfação de vida, é não termos a noção das bases em que estamos a assentar as nossas escolhas, porque, não o reconhecendo, não as serão escolhas verdadeiras, mas sim cursos de acção a que, naturalmente, nos sentimos obrigados, sem alternativas a considerar, sem livre arbítrio.

Desafio-o a olhar para as escolhas que fez nas últimas 4 horas. Porque é que comeu o que comeu, vestiu o que vestiu, disse o que disse, calou o que calou, concordou com o que concordou, respondeu o que respondeu, clicou onde clicou, preferiu o que preferiu…? Decidiu? Ou apenas seguiu a onda de velhos hábitos? Ou apenas fez o que achou que era suposto fazer? Aposto consigo que a maioria das coisas que fez e não fez, tiveram muito pouca intervenção sua de análise e escolha efectiva.

Mais uma vez: isto é bom! Qualquer outra forma seria profundamente ineficiente e cansativa. Mas se anda insatisfeito com alguma área da sua vida, está na hora de reflectir sobre as suas escolhas. É preciso carregar no botão de “pausa”, e por o filme a andar muito devagarinho para que possa analisar as opções e os respectivos cenários, para que possa escolher, de facto.

E quando o começa a fazer, vai descobrir o seu pior inimigo. O seu cérebro a tentar convencê-lo a fazer uma de duas coisas: ou aquilo que sempre fez, ou a melhor opção no curto prazo.

A melhor opção no curto prazo é um atalho conhecido do nosso cérebro, uma programação de base que funciona quase como a perspectiva visual: quanto mais longe, mais pequeno – neste caso a recompensa da acção que estamos a considerar. Por isso, e sem que nos apercebamos de forma muito consciente, o retorno que temos mais perto no tempo parece-nos sempre muito mais interessante do que aquele que vamos obter dentro de um ano ou dois. Sim, sim, esta fatia de bolo de figo comida agora parece-me muito mais interessante do que uns quilos a menos dentro de 6 meses. E nem pense em convencer-me do contrário, porque o bolo cheira irresistivelmente bem!

E depois temos o tema da familiaridade, algo que o cérebro humano (talvez mesmo os cérebros em geral) está programado para valorizar acima de quase tudo. O que é familiar é bom, para usar uma frase que nos lembra um slogan publicitário antigo. Faz sentido, de um ponto de vista de segurança pessoal – se é familiar e ainda não deu cabo de nós, sempre será mais seguro do que algo desconhecido que sabe-se lá se não nos morde logo no primeiro “olá” 🙂

Mas o seu pior inimigo não é nenhum conjunto de atalhos mentais de raciocínio (chamados de heurísticas), que visam a organização de vida de uma forma eficiente e em segurança. O seu pior inimigo é mesmo a enorme capacidade que o cérebro tem para criar explicações, todas elas muito “racionais” para que fiquemos tranquilos a propósito das nossas opções. Não acha tão racional e evidente comer aquela tablete de chocolate, agora que até há estudos a comprovarem que o chocolate faz bem (a qualquer coisa, não interessa!); além de que merece, verdade?; fartou-se de trabalhar o dia todo e além disso fez aquele almoço próprio de grilo, cheio de alfaces artisticamente dispostas em cima de cenoura ralada… E por aí vai.

A congruência é algo pelo qual o cérebro humano se bate com unhas e dentes. Tudo tem de fazer sentido, pelo que, mais vezes do que aquelas que gostaríamos que fossem verdade, estamos a fazer escolhas que não o são, de facto. E não o são porque não estão alinhadas com os nossos valores pessoais, os nossos objectivos e/ou governadas por princípios de utilidade pessoal. São apenas instintivas, familiares, congruentes, visam reduzir a nossa ansiedade da incerteza, manter o status quo e… vêm muito bem justificadas, enganando precisamente a única pessoa que não poderiam enganar: o próprio.

Muitas vezes, é apenas no contexto psicoterapêutico que é possível desmontar estas racionalizações e libertar capacidade de análise para escolhas verdadeiramente informadas, tomadas na liberdade dos atalhos mentais e da pressão para a congruência. E enquanto isso não acontece, sugiro-lhe que vá mantendo um olho nas escolhas que faz diariamente, colocando-as em causa, avaliando alternativas e verificando-as de acordo com a sua bússola interna.

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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    2020-09-03T21:12:34+01:00Setembro 3rd, 2020|Cérebro, Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo, Psicoterapia|
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