É força ou ouriçou-se?

É força ou ouriçou-se?“Eu sou forte. Eu sou fraca”.

Estou a falar português e, portanto, percebeu-me.

Ou não?

Ou apenas julga que falamos do mesmo? E que temos a mesma valorização para estas palavras simples e que conhecemos desde pequenos? E que são palavras com qualquer utilidade? Descritivas de personalidades?

Você diz: “Vai ao psicólogo quem é fraco”; o psicólogo responde-lhe: “Forte é quem sabe pedir ajuda”.

O amigo diz-lhe: “Tu és forte, quem me dera!”; você responde “Ser forte é a minha fraqueza, que a dor dói mais no isolamento da força”.

Na entrevista de selecção perguntam-lhe: “quais são os seus pontos fortes? E os seus pontos fracos?”; você lá desfia o rosário ensaiado, que os fracos possam ter brilho de fortes, e os fortes não cheirem a arrogância.

Forte é quem aguenta sem fazer seu o ombro alheio. Fraco é quem sucumbe à tentação, sem a fé que o sustente no finca-pé de uma moralidade. Forte é quem prossegue, surdo a tudo o que o possa desviar. Fraco é quem se lamenta, se lhe descaem os ombros, no abandono do não vale a pena. Forte dá a mão ao orgulho. Fraco deixa que lhe passem por cima interesses e necessidades de outros.

Ou não?

Ou as fronteiras não existem? Ou depende de cada situação a força ou fraqueza com que a encaramos? Ou é o contexto cultural quem dita se é força ou fraqueza? E se a forma como fazemos frente a essas situações for astúcia e não fibra? Que interesse existe em catalogar os seres humanos – nesta dicotomia ou noutra qualquer?

São mais as perguntas que tenh,o sempre quando alguém que se senta à minha frente me diz “eu sou…”, do que respostas que possam ter utilidade. Mas neste caso, queria apenas falar-lhe de uma ligação entre duas pessoas com quem falei recentemente.

As duas em sofrimento pela sua força. As duas sem verem o papel que essa força tem na situação que mantém o sofrimento.

Aquilo a que ambas chamam força vem da resistência a condições de vida de dificuldade extrema – da negligência à violência, desde cedo – e mantida ao longo de uma vida de convulsões várias. Felizmente. Felizmente que resistiram e foram encontrando, cada qual à sua maneira, formas de se erguerem acima dessas dificuldades. Mas a factura está lá sempre – nos dois casos, numa sensação de isolamento e solidão, que desespera e as faz questionarem-se sobre si próprias. E está, também, na zanga contra a sua força – desgastante, que as coloca à margem daqueles que as rodeiam. E nessa mesma zanga que vai bombardeando quem as rodeia, também, porque a zanga é conhecida por ser cega aos destinatários, mais força oportunista que recai sobre quem está por perto.

Mas, sobretudo, à força de ter sido – e continuar a ser – uma estratégia de sobrevivência eficaz, quando aplicada ao que moldou os seus anos de formação, até à idade adulta, tornou-se a estratégia principal. Assim é o cérebro, na sua luta pela eficiência: estratégia ganhadora aqui, aplica-a ali e acolá, até a aplicar a tudo.

Quem é magoado à séria, humanos e não humanos, reage rosnando a todos, desconfiando do mundo e preventivamente afastando quem se possa aproximar, não vá ser mais um elemento que os magoe. Infelizmente, os humanos têm algo que os prejudica nesta reacção primária: racionalizam. Se o magoam a ponto de se ouriçar, enrolando-se numa bola de espinhos que sinaliza ao mundo que melhor fará não lhe tocar, saiba que o seu pior inimigo é a voz interna que lhe dá razão e cria as mais diversas justificações para isso: que não quer incomodar os outros (por isso, não lhes pede ajuda, nem lhes pede encosto), que as pessoas são maioritariamente más (e consegue encontrar vários exemplos que não lhe deixam margem de dúvidas), que o mundo funciona mal e injustamente, pelo que não vale a pena confiar em nada, que a vulnerabilidade é perigosa e pode destruí-lo, que…

As razões concretas são pouco importantes. O que importa é a base de onde partem: o mundo é perigoso para mim, porque já o foi no passado, e a melhor estratégia é evitá-lo, porque já a foi no passado.

Esta continuidade de uma estratégia que foi a sua – talvez – salvação passada não foi actualizada no presente – agora, que é crescido, agora que tem autonomia, agora que pode fazer outras escolhas mais adaptadas ao seu novo mundo. E a sua continuidade cria uma profecia autocumprida: afinal, quem quer ir fazer festinhas a um ouriço? E lá fica o ouriço a pensar que ninguém lá está para ele e mais se ouriça preventivamente.

Pense um pouco nas suas estratégias actuais com que se equipa para lidar com o mundo. Não tem quem o acarinhe e, por isso, rosna ao mundo? Experimente inverter a ordem lógica e causal porque pode acontecer que esteja a rosnar ao mundo e é por isso que não tem quem se aproxime. E, se assim for, são boas notícias, porque inverter a situação apenas depende de si, ainda que lhe possa dar um frio no estômago, porque terá de começar a fazer diferente, num salto de fé que requer coragem. Ou força. Não sei…

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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    2020-08-25T12:12:40+01:00Agosto 25th, 2020|Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo, Psicoterapia|
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