Controlo, aversão ao risco e alergia à incerteza

Controlo, aversão ao risco e alergia à incertezaO controlo e o stress são amigos íntimos. Há vários outros contributos para o stress, mas a percepção de controlo é, provavelmente, a mais importante. E atenção: a percepção de controlo, porque o controlo efectivo, bem… esse anda sempre muito arredado da vida; quando olhamos bem para as coisas, pouco ou nada controlamos. Mas a sensação de que seguramos as rédeas da vida é algo de absolutamente crítico para o ser humano (e não só).

Há muitos factores que contribuem para o aumento e a diminuição desta percepção de controlo, a maioria das quais muito pouco controlada por nós :). Uma chefia que faz micromanagement, uma doença cujo curso seja mais incógnita do que certezas, um mercado de trabalho que vai oscilando de formas caprichosas, a dependência afectiva de outros, cuja vontade e comprometimento nem sempre são os mesmos do que os nossos…

Por outro lado, e felizmente, conseguimos ir modulando esta percepção, até mesmo de formas muito simplistas. Quando faz uma lista de tarefas que pretende terminar, está a intervir nesta percepção de controlo – além de se estar a organizar, claro. Quando pensa em termos de preferência (“prefiro despachar agora estas tarefas”), ao invés de pensar em termos de obrigações (“tenho de ir fazer estas tarefas”), também contribui para uma sensação interna de auto-controlo. Quando alguém lhe dá a escolher entre A ou B, abre-lhe margem de controlo, mesmo que não seja grande, por estar, desde logo, circunscrito às opções apresentadas.

Se gere equipas de trabalho, compensa-lhe criar este espaço de percepção de controlo, nem que seja em aspectos muito pequenos, se forem os únicos em que consegue intervir. Aquela reunião terá mesmo de ser realizada, mas talvez possa deixar a hora ou o dia à consideração dos participantes. Aquela outra tarefa tem de ser cumprida dentro de um determinado prazo, mas o caminho para lá chegar, a forma como vai ser feita, pode ser deixada ao critério de quem a desempenha, com mais ou menos apoio ou monitorização. Ter isto sempre presente é largamente compensado pela produtividade que o menor stress liberta.

Da mesma forma, se tem miúdos em casa, perguntar-lhes se preferem A ou B, sendo que considera adequados tanto o A como o B, reduz fricção e oposição, e contribui para miúdos mais tranquilos – além de que está a fazê-los trabalhar o sentido de responsabilidade.

Não é por acaso que lhe falo de percepção de controlo neste momento – andamos todos com vidas suspensas do que fará a seguir um bicharoco minúsculo que conseguiu por o mundo em polvorosa. Regresso ao trabalho? Não sei. Em que condições? Não sei. Será que logo de seguida tenho de voltar para casa? Não sei. Posso marcar aquele jantar de família? Não sei. E “não sei” praticamente nada, em todas as esferas da vida, neste momento. Stress em alta, portanto, pelo tempo decorrido e pelas áreas de funcionamento humano afectadas, e já a chegar ao vermelho.

Por isso, tudo o que possa fazer, por si e pelos outros, que ajude na redução desse stress é prioridade. E a percepção de estarmos no comando, seja do que for, é crítica nesta ajuda.

Mas… há sempre um “mas” em todas as histórias… Os seres humanos posicionam-se ao longo de linhas contínuas de qualquer aspecto possível. Imagine a teimosia – há quem esteja num extremo, ocupado pelos verdadeiramente obstinados, que não mexem nem um milímetro, e há sempre quem ocupe o outro extremo, concordato e sempre disposto a rever a sua conduta e opinião. A maioria dispõe-se ao longo de toda a linha, uns mais a meio, outros mais para um ou outro lado.

O tema da aversão ao risco não é diferente – há quem tenha um temperamento de profunda aversão a qualquer risco, real ou imaginado, e quem vá alegremente fazer rafting, parapente e outras actividades de alta adrenalina. As pessoas de maior vulnerabilidade ansiosa costumam ser bastante avessas a risco. E, por isso, talvez, bastante alérgicas à incerteza, porque não saber retira-nos de território conhecido, e o desconhecido é arriscado.

Ora o descontrolo tem sede no risco do desconhecido. Não é que não tenha subsidiárias noutros locais, mas o território não cartografado deixa-nos de imediato bem cientes de que não somos imperadores desse reino.

Então, se é uma pessoa com jeito para a ansiedade, saiba que vive momentos em que será “normal” – no sentido de ser esperado – que todos os seus sinais que indicam ansiedade ao rubro, estejam bem presentes na sua vida. Não há por que se afligir – apenas terá de cuidar bem do nivelamento do seu sistema nervoso, garantindo que baixa a sua activação, com as diversas estratégias que permitem regular emoções de altas rotações. E uma dessas estratégias é ir criando os mecanismos e acções que o ajudam a manter a percepção de controlo na sua vida, sempre dirigindo a atenção para aquilo que está ao seu alcance, e deixando ir, desvalorizando aquilo que não comanda, nem pode controlar.

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

Marque consulta comigo

    Pretendo: (obrigatório)
    Marcação de ConsultaInformações ou Reunião



    Ao usar este formulário, concorda com o armazenamento e o gerenciamento dos seus dados por este site.

    Load More Posts
    Newsletter 3

    A NOSSA NEWSLETTER

    PODE MUDAR-LHE A VIDA

    • Recheada de informações úteis da Psicologia para MELHORAR A SUA VIDA

    • É GRATUITA

    • GANHA logo um curso de RESPIRAÇÃO CALMANTE

    • Só lê se quiser

    • De PRESENTE, também recebe um GUIA para o conforto do SISTEMA NERVOSO

    • Desiste quando quiser (mas nós ficamos tristes…)

    • Fica a saber mais de Psicologia do que o seu vizinho

    • Ninguém sabe que a recebe

    • Não se arrisca a perder os nossos PRESENTES e PROMOÇÕES exclusivos

    • Sabe tudo primeiro do que os outros

    Qual foi o interesse que este artigo teve para si?

    0
    0,0 rating
    0 em 5 estrelas (total de 0 avaliações)
    Excellent0%
    Very good0%
    Average0%
    Poor0%
    Terrible0%

    There are no reviews yet. Be the first one to write one.

    2020-09-04T14:33:33+01:00Setembro 4th, 2020|Ansiedade, Madalena Lobo|
    Go to Top