Caíu-lhe a ficha?

Caiu-lhe a fichaHaverá alguém que nunca tenha tido um momento de consciência súbita a propósito de qualquer tema? Aperceber-se, de repente, sem mais nem porquê, de um novo entendimento profundo a propósito de qualquer coisa que andava a ver sem ver? Um momento aha, normalmente aplicado a qualquer coisa que, quando a vemos, nos é tão evidente que quase nos sentimos burros por não a ter visto até esse momento. Pode ser algo tão simples como “Olha, envelheci!”, ou complexo como “E não é que eu tenho é medo das reacções do meu corpo?” ou triste como “Também eu, não sou eterno”.

Não acha que este súbito completar de puzzle é revelador de um modo interessantíssimo do funcionamento humano? Eu quase que arriscaria dizer que os temas importantes nas nossas vidas– com significado pessoal – comportam sempre dois níveis de entendimento.

Há um nível mais “frio”, mais intelectualizado. Claro que sabemos que não somos eternos. Claro que sabemos que os azares não acontecem só aos outros. Claro que sabemos que algo está a correr mal, ou que vamos em rota de colisão contra um muro. Claro que sabemos… normalmente uma série de coisas que, lá no fundo, não queremos saber. E depois, num ápice, e movido normalmente por algo que acontece, cai a ficha! Há um clarão, e é como se o entendimento verdadeiro nos caísse da cabeça para o estômago – do topo – frio, analítico, capaz de ser discutido num jantar de amigo -, para o centro do corpo, e daí irradiando para a nossa totalidade, sem palavras, apenas uma sensação de evidência, feita de emoções mudas e que nos ardem.

Nunca vi isto relatado a propósito de situações agradáveis. Talvez seja idêntico mas, por ser agradável, a memória não retém. Há algo apenas semelhante, relacionado com uma das fases da criatividade, a emergência súbita de uma visão clara ou solução para um problema que se andava a tentar resolver, mas não é a mesma coisa. Ninguém diz “caíu-me a ficha”, “bateu-me”, caí em mim”, “foi um abanão”, a propósito de uma ideia que resolve um problema. E sendo a linguagem mais informal uma boa medida do trabalhar interno dos seres humanos, deve ser um fenómeno diferente.

Em parte, talvez este cair de ficha corresponda à resolução de um estado que se costuma chamar de negação – confesso que embirro um pouco com estes mecanismos de defesa postulados há muitos anos. Não que não existam, mas fica sempre uma sensação de que o fazemos de uma forma quase consciente ou voluntária – dizer de alguém que está em negação é quase uma acusação de que não quer ver um tema, e nada poderia estar mais longe da realidade.

Na verdade, é como se o nosso cérebro estivesse programado para conseguir abarcar os temas de duas formas: conhecimento (eu sei que o mundo roda) e entendimento (eu sinto no mais fundo de mim que o mundo roda). Transitar de um modo para o outro não depende da nossa vontade, nem de nenhum “equipamento de inteligência” tanto quanto eu saiba. E também não me resulta claro qual a utilidade prática disto, só por si, na maioria dos casos. Do que tenho a certeza é que este cair de ficha pode ser só somático – apenas o corpo o regista, um mal-estar geral ou localizado, um “ir para baixo” inexplicável – ou total, ou seja, sentimos e percebemos o que nos está a acontecer. E isso sim, mais do que importante e útil, é uma peça fundamental sobre a forma como o resto da história se escreve.

Quando conseguimos colocar em palavras uma dada realidade é como se a desgrudássemos de dentro de nós, a colocássemos na palma das mãos, onde podemos olhar para ela, rodá-la e mexê-la. E isso muda tudo! Não porque mude o que aconteceu – isso continua lá – mas está na palma das nossas mãos, um sítio de muito maior controlo e um sítio com o distanciamento suficiente para conseguirmos uma análise que não esteja afogada em emoções e, assim, reganharmos a esperança de encontrar soluções práticas ou espaços de aceitação.

Mas a maioria das vezes, de algo que paira nas nossas cabeças, seguimos para um estado de mal-estar por esse algo que nos “caíu”, e nem sempre conseguimos o distanciamento suficiente para conseguir fazer qualquer coisa com isso, o que apenas perpetua o mal-estar. Poderemos dizer que a psicoterapia permite colocar esse tema nas palmas das suas mãos e dar início a uma resolução, seja ela feita de resoluções comportamentais ou de integrações emocionais.

Deixo-lhe, entretanto, um exercício que o pode ajudar a identificar temas internos. Faça uma pausa agora e percorra-o.

Momento para um exercício de focalização

Como se sentiu?

Reparou que eu disse “dar início a uma resolução”? Há um mau entendimento comum daquilo que é o objectivo de uma psicoterapia – muitas pessoas têm por expectativa que trabalhar com um psicólogo serve para compreenderem: o que se passa consigo, porque acontece o que acontece, quais as causas da forma como se sentem, o que aconteceu no seu passado que explica o seu funcionamento actual.

E isso é interessante. Sempre que possível, sempre que são conhecidas linearidades causais (coisa mais rara do que parece), em que se sabe que, se aconteceu A, então o resultado teria de ser, na maioria das vezes, B, ou quando há uma interpretação dos factos actuais que permite liga-los à linha condutora do crescimento de cada um. Perceber a lógica de uma situação dá-nos sempre um certo domínio sobre ela, ainda que possa ser um domínio meramente intelectual, que deixe o mundo emocional intocado. Mas é curto e não é o objectivo principal de uma psicoterapia. O conhecimento apenas dá resposta à curiosidade, mas deixa a vida por responder. O conhecimento, em psicoterapia, estando lá em lugar de honra, é mero contexto e ponto de partida para o trabalho que tem de ser feito: aqui estou eu, desconfortada com a vida, e sem saber como repor uma situação que me permita fluir, respirar livremente, escolher o meu caminho.

Então, primeiro percebo como aqui cheguei (ou uma possibilidade entre vários caminhos possíveis) e o que significa este desconforto. Depois, aprendo a regular o mal-estar, para que ele não me atrapalhe os próximos passos e me liberte para o processo de mudança e reintegração. E, esse sim, é o objectivo último psicoterapêutico: mudar! Passar de A (desconforto, bloqueio, dor,…) para B (uma vida que lhe faça sentido viver, nos constrangimentos que são os de cada um). E isto é o mesmo que dizer que, mais do que “conversa”, o espaço psicoterapêutico é ocupado por aspectos práticos de mudança efectiva – e se não há mudança visível, num espaço de tempo razoável, algo está a correr mal.

Fases de recuperação psicoterapêutica

Confronto-me quase diariamente com este tema, que apenas requer bom-senso – nem é preciso ciência muito avançada. Se há recurso a um profissional para resolver uma queixa, e a queixa se mantém – e, nalguns casos, até se agrava – alguma coisa está a correr mal e tem de ser re-avaliada. Claro que a queixa pode estar mal definida (venho ao psicólogo só para conversar, mas não quero mudar nada), as expectativas dos resultados podem ser irrealistas (quero ser feliz e sem traços de qualquer preocupação, de preferência já amanhã) ou o foco não estar em si próprio (quero que os outros sejam diferentes). Mas também pode acontecer que o entendimento entre o cliente e o psicólogo esteja assente numa base que não é entendida de uma forma comum, e/ou não foi debatida por ambos (o cliente quer que a ansiedade desapareça e o psicólogo sabe que é preciso encontrar primeiro um espaço de aceitação, mas não falaram disto) ou – pior – podem ficar ambos a marcar passo a analisar a vida que vai acontecendo, a cada semana em que se encontram, sem rumo claro nem objectivos acordados.

Duração da psicoterapia

60% das pessoas acha que vai resolver as suas dificuldades em 8 consultas. Na realidade, 50% das pessoas fica bem em 20 consultas (com 20% a ficarem bem em 5 consultas e 70% em 45 consultas). As expectativas quanto à duração e à natureza do trabalho feito em consulta é fundamental para os resultados que se vão obter.

Em qualquer circunstância, se estiver num processo psicoterapêutico ou vier a estar, use esta regra simples: a cada 6 consultas, agarre numa folha de papel e anote o que mudou nesse tempo, por via dos seus novos entendimentos e dos seus esforços em produzir mudança. As mudanças no sentido positivo serão os seus ganhos terapêuticos. Não mudou nada? Na próxima consulta, debata este tema com o seu psicólogo. Mudou pela negativa (a dor aumentou, a sensação de descontrolo ou bloqueio agravou-se, foi perdendo qualidade de vida)? Fale com o seu psicólogo e, se não ficar convencido com a conversa que teve, está na hora de lhe cair a ficha e… bem, considerar uma segunda opinião, certo?

Uma outra coisa que talvez o ajude a obter melhores resultados é um conjunto de duas perguntas simples que pode colocar a si próprio. À entrada de cada consulta, pergunte a si próprio: “O que pretendo obter com esta próxima hora?”. Isto vai ajudá-lo a ficar focado no tema que lhe for mais importante e a procurar activamente soluções e entendimentos. E é, de facto, crítico que o faça, porque o psicólogo que está do outro lado terá tendência a segui-lo – afinal de contas, a vida é sua, e se passar uma hora a falar disto e daquilo, há alguma probabilidade de o psicólogo “ir atrás de si” porque acha que é esse o tema que quer trabalhar nessa consulta.

E no final de cada consulta, tente resumi-la, perguntando a si próprio: “O que levo hoje comigo? O que retiro desta hora?”. Cada consulta deve representar algo: novo ou de consolidação do que já aconteceu; não importa. O que importa é que não é uma conversa ao sabor do gosto, sem um destino, pelo que é suposto sair de cada consulta com algo nas mãos, nem que seja a consciência de um passo numa direcção que ainda precisa de vários passos mais.

E, sobretudo, deve sair de cada consulta com um compromisso consigo próprio de que irá experimentar coisas diferentes até à próxima, alinhadas com o que foi debatido em sessão. Se não fizer diferente e ensaiar pensar diferente, vai continuar a obter os mesmos resultados que o levaram ao ponto onde iniciou o seu processo psicoterapêutico.

E, entretanto, dou-me conta de que não lhe disse que tudo isto é mentira J Mas apenas em dois casos: terapia infanto-juvenil, que segue lógicas interventivas específicas – e quem percebe disso é a minha colega Inês Afonso Marques – e processos de desenvolvimento pessoal. Hem? Bom, há dois motivos pelos quais pode pedir ajuda a um psicólogo: tem uma situação problemática que quer resolver ou quer apostar num processo de estrutura e crescimento pessoal. Neste último caso, muito comum, as sessões são menos focadas e menos estruturadas – e a responsabilidade da condução das consultas fica mais do seu lado. Mas lembra-se daquelas duas perguntas a colocar a si próprio, antes e depois de cada consulta? Pois essas mantêm-se. A psicoterapia tem menos de processo contemplativo do que de processo activo e dinâmico.

Estar bem e sentirmo-nos completos, a viver uma vida plena, é um dos actos mais altruístas ao nosso alcance – só quem está bem consegue a disponibilidade emocional máxima para estar lá para os outros e para deixar o seu contributo positivo no mundo que habita. Por isso, se lhe cair a ficha de que não está bem, ou poderia estar melhor, não hesite: estamos por aqui, prontos para trabalhar consigo.

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10/08/2020

Percebi que a Madalena é uma pessoa honesta e que se interessa pelos seus ou futuros pacientes.
O texto “Caiu-lhe a ficha?” é muito bom, bem como o exercício que o acompanha.
Bem haja pelo seu trabalho.
Obrigado

Vasco
08/08/2020

Muito útil,…

Anónimo
Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2020-08-24T16:15:58+01:00Agosto 8th, 2020|Bem-estar, Madalena Lobo, Psicoterapia|
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