A tarte merengada de limão

Esta semana, já vão duas sessões em que, após uma mera meia hora, eu me estou a interrogar se não ficarei, tal como o meu cliente, igualmente bloqueada e desesperada com o que me está a ser relatado. Porque os relatos de situações impossíveis em todas as frentes são comuns em psicoterapia, sobretudo na primeira consulta ou após uma interrupção longa de um processo que ainda ia nos seus passos iniciais. Seja por onde for que se olhe, tudo desemboca num beco sem saída, feito de tormentas várias.

Seguindo a velha piada que diz que num processo psicoterapêutico uma das pessoas tem de se manter calma, e convém que seja o psicólogo, que tipo de raciocínio é que habitualmente uso para nos tirar aos dois das impossibilidades?

Tarte merengada de limãoUso a imagem de uma tarte merengada de limão. Porquê? Porque adoro tarte merengada de limão 🙂 Isso, e porque é uma boa metáfora que me guia no processo.

Em primeiro lugar, o tema do limão – porque a frase repetida à exaustão de que quando a vida nos atira limões, fazemos limonada, me deixa sempre desconfiada com a falta de gosto gastronómico de quem a disse pela primeira vez e de quem a repete. Limonada? A sério? Com tanta coisa boa para se fazer com limões? Brincadeiras à parte, não deixa de haver um fundo de razão nesta lógica – uma mesma situação tem sempre verso e reverso e, se no seu verso, estamos num beco sem saída, teremos de a virar, olhar de outro ângulo, e pensar de forma diferente, se queremos sair dali. Há doce e amargo numa tarte merengada de limão e há doce e amargo em cada desafio da vida – se não os estivermos a ver a ambos, podemos ter a certeza de que temos uma visão incompleta, obstruída por algo, e que nos rouba riqueza no usufruto da vida.

Depois, temos a noção de uma tarte que tem a possibilidade de várias fatias – umas finas, outras grossas. As fatias do contributo para um problema. E, enquanto não as tivermos bem identificadas, de uma forma tão objectiva quanto possível, por oposto a uma avaliação de aflição de “isto está a correr mal, e além disso, também aquilo, que não está mas pode vir a estar, e também porque me lembro que, quando era pequena, aconteceu aquilo,…”, não iremos conseguir ter um plano.

Por isso, se a vida não lhe anda a correr bem, desenhe um círculo numa folha de papel e, a seguir, pense nas “fatias” do mal-estar actual, e desenhe-as – maiores para os temas que sente como tendo maior peso e menores para aqueles que, não deixando de ter impacto, o têm menor. E depois comece a fazer setas que mostrem qualquer interrelação entre eles.

Por exemplo, imaginemos que anda com dores, dorme mal, o emprego está em perigo, anda nos sarilhos de um divórcio, sente-se sozinha e sem qualquer paciência para os miúdos. A sua tarte poderá ter fatias para dor, sono, poder paternal, partilhas de divórcio, casa, procura de emprego, gestão dos filhos. E talvez veja relação entre sono, dor e impaciência; entre procura de casa e estabilidade de emprego; e mais verá, consoante a sua análise muito própria da textura do momento que é – ela também – muito própria.

Agora olhe apenas para a sua tarte (em vez de se por a pensar na vida olhada a partir de dentro, para conseguir libertar distanciamento suficiente para uma análise mais objectiva). E pergunte a si própria:

  • Qual é a acção, mais simples, imediata e ao meu alcance, por onde posso começar e que tenha um impacto positivo numa destas áreas?
  • Qual é a fatia da tarte com mais interrelações com as outras e que esteja mais directamente sob o meu controlo?

E já tem a primeira etapa de um plano de acção. Se começar a implementar as acções necessárias e, depois de o fazer, repetir as mesmas perguntas, começará a fazer rodar uma espiral que estava em rota descendente no sentido oposto. Nenhum passo é capaz de consertar uma situação de vida complexa. Mas uma sequência de passos, bem pensados, articulados entre si, começados de imediato, por simplistas que sejam, são capazes de a fazer sair de um beco sem saída e começar a ver caminhos que se desenham à sua frente.

A outra camada de análise é sempre um bocadinho mais difícil, por isso, sugiro que a coloque apenas depois de começar a sentir que já tem as rédeas da sua vida bem seguras entre as mãos. Estou a falar do doce que se mistura com o limão. Pergunte a si própria: como é que esta situação, que provavelmente não escolhi, que não quero, de que não gosto, que me parece tão negativa e me cria tanto mal-estar, poderá ter aspectos que me beneficiem agora ou no futuro? Talvez a necessidade de procura de outro trabalho a conduza numa alteração de carreira que, dentro de uns anos, considere uma sorte? Talvez as alterações que teve de fazer à sua vida acabem por vir a ser uma base para mais tempo de qualidade com os seus filhos? Talvez… Uma procura activa das oportunidades que se escondem dentro dos problemas é muitíssimo mais útil e mais tranquila, de um ponto de vista emocional.

E não, não lhe estou a dizer para procurar o positivo para ficar bem-disposta e fazer de conta que as dificuldades não estão lá. Estou apenas a dizer-lhe que é a relação complexa entre o amargo do limão e o doce do açúcar na nossa tarte merengada que a torna interessante e a razão pela qual vale a pena comê-la 🙂

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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    2020-08-31T11:55:47+01:00Agosto 30th, 2020|Bem-estar, Madalena Lobo|
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