A patinar na insatisfação

A patinar na insatisfaçãoComo qualquer psicoterapeuta, os meus dias são feitos na presença desse estado difuso que pode ser chamado de insatisfação. Normal, não é? Afinal, foi para isso que me inscrevi, porque quem está satisfeito na vida não marca consulta com um psicólogo. Bom, por isso, e porque também me assiste, já que estamos a falar de uma visita comum a todos os seres humanos.

Mas não é da insatisfação primária, a que chamamos queixa (ou seja aquilo que traz uma pessoa ao nosso consultório para resolução), de que lhe quero falar hoje. Queria apenas reflectir consigo sobre o conjunto de pontos de atrito na sua vida que geram insatisfação e se vão acumulando e interagindo com todos os outros temas de vida, podendo vir a criar uma sensação de peso e mal-estar, de quem se sente de mal com a vida, irrequieto e com uma vaga sensação de azia.

As muitas recriminações em relação ao parceiro, as pequenas guerras e preocupações com os filhos (sobretudo os adolescentes), os focos de irritabilidade no trabalho, aquelas pequenas ruminações amargas na impaciência com os outros e com as contrariedades. São todos aqueles pequenos temas – não os grandes – constantes, como se fossem pequenos focos de incêndio, nenhum deles particularmente preocupante mas que, quando vistos no seu conjunto, retiram qualidade de vida e capacidade para usufruir dela com ligeireza e boa disposição.

É comum conversar com pessoas que estão a assumir um discurso – e portanto a ter um foco atencional – que magneticamente se orienta para estas pequenas irritabilidades e contrariedades de vida, de uma forma sistemática, e aí ficam mergulhadas, em risco de se afogarem.

E isto tem três aspectos que me parecem importantes: a identificação realista dos temas, a necessidade de criação de um equilíbrio óptico e um foco na solução.

A identificação dos temas

É tão fácil perdermos a noção do que está em jogo em cada situação que nos incomoda! Tão fácil que penso mesmo que será a regra.

Acha que não? Pense na última pequena discussão que teve – não, não lhe estou a pedir para recordar aquela discussão de faca e alguidar que mudou o curso da sua vida. Apenas uma das muitas que vamos tendo, com a cara-metade, um colega de trabalho ou até o vizinho da frente. E agora tente resumir o tema, como se o fosse apresentar numa conferência ou reunião “Senhoras e senhores, o que está em jogo aqui é… E o que pretendemos resolver foi… As partes estavam preocupadas com… Divergiam em relação a… E concordaram em relação a…”.

Consegue preencher os espaços em branco? Não, pois não? Pelo menos, não com a facilidade do que está na ponta da língua. A irritação cria um clima interno muito pouco propício à visão do conjunto, à imagem mais global e, sobretudo, à objectividade que nos permite mapear o tema e o terreno em que nos estamos a mover. E ficamos com o quê? Com as recriminações, com as batalhas corpo a corpo em relação a coisa nenhuma, e com posições que se extremam sem ser ao serviço do que é verdadeiramente importante para cada um de nós.

Agora recorde uma das suas últimas contrariedades, daquelas que não envolvem confrontos directos com pessoas. Por exemplo, o cansaço com as suas tarefas profissionais e não se sentir a progredir, ou um ritmo de vida familiar que lhe anda a desagradar e causar desgaste. E, mais uma vez, imagine que vai fazer uma apresentação clara sobre o tema: “Senhoras e senhores, o que me frustra é exactamente isto…; o que eu preciso que aconteça para deixar de estar frustrado é, no mínimo, …”. Consegue? E atenção porque não vale refugiar-se em conceitos gerais do género: “O que me desagrada é a desorganização das pessoas e o que eu preciso é de diálogo”. Isto são conceitos vagos, que talvez estejam cheios de significado pessoal para si, mas que não contêm nada sobre o qual possamos agir ou que possamos identificar claramente.

Sempre que há um “estou farto disto”, convém sabermos identificar exactamente o que é que nos está a desgastar – seja numa contrariedade da vida, seja numa relação pessoal frustrante ou em vias de choque frontal. Sem isso, nada se consegue resolver, pelo que a insatisfação tende a perpetuar-se. E, o que é pior, é que, nesta continuidade da insatisfação, os diálogos que vamos mantendo são destrutivos das relações, porque são maioritariamente feitos de recriminações, críticas, acusações, queixas difusas,… conflitos que se agravam e cada vez frustram mais tanto um como o outro. E olhe que a vida é muito curta para andarmos com irritações que se poderiam amenizar, se levadas com estratégia diferente…

A necessidade de um equilíbrio óptico

Há uma dança comum que aposto que já conseguiu observar nos outros: alguém diz algo de positivo ou construtivo, e o outro responde “ah! Pois, mas…”. E estou a falar de “dança” porque o interessante é a repetição padronizada deste tipo de diálogos. Isto é tão comum, que contrariá-lo faz parte do treino habitual dos actores de improvisação, sendo considerada uma das aptidões mais importantes para conseguir subir ao palco e construir, em conjunto com os outros actores, uma peça que se vai desenrolando de uma forma criativa e colaborativa. Por curiosidade: chamam-lhe o exercício “Sim, e…”; quando dinamizo acções de formação sobre temas comunicacionais e de conflito, tenho sempre alguns destes exercícios preparados, porque são muito úteis e muito divertidos.

Se o ser humano não tivesse tendência para esta oposição constante de obstáculos e objecções a qualquer coisa que o faça desencravar das suas posições nos temas, de certeza que os actores em todo o mundo não teriam de investir muitas horas de treino para conseguir reverter esta artimanha da nossa programação cerebral.

Mas o mais curioso mesmo é a hipermetropia que cada um de nós tem em relação a estes seus comportamentos: quando sabemos o que procurar, é fácil detectar nos outros, mas observar em nós… Estamos demasiado próximos para conseguir ver bem. Por isso, mais vale assumir, por defeito, que é essa a sua atitude de base quando está frustrado com um tema: aquilo que está a ver são as várias soluções que não solucionam nada, os becos sem saída, as impossibilidades. E, porque está frustrado, tem dificuldade em considerar que pode haver uma abertura algures, a dar acesso a um caminho de saída, numa recusa precipitada, porque o foco atencional está colocado nas barreiras e muros à sua volta.

Da mesma forma, numa discussão, volta incessantemente ao que aconteceu no passado – de ontem ou na distância dos anos– que o irritou, desagradou, magoou, quebrou a sua confiança, ou seja o que for de impacto negativo. Depois, habitualmente, a racionalização deste comportamento é que “precisa de compreender o que aconteceu” – mas esta é apenas uma racionalização. Na prática, é um tema emocional dolorido em aberto no seu cérebro, e fica lá, como uma bandeira de alerta à navegação, que lhe está internamente a ser recordada para que tenha cuidado (“Olha que te aconteceu isto”, diz o seu cérebro). Ouvindo-o, reconhecendo que o impulso de voltar à memória do que aconteceu no passado é adaptativo e algo que o seu cérebro está programado para fazer para o ajudar nesta dura tarefa que é sobreviver, poderá tomar decisões, com a ajuda do passo anterior: identificou objectivamente qual o tema em questão? Isso irá ajudá-lo a manter-se focado no presente, sem grandes viagens ao passado, quando está a tentar resolver uma contrariedade. Mas ainda terá de se equipar com mais um aspecto habitualmente esquecido.

O foco na solução

Confesso que acho divertido quando uma pessoa capaz de discursar horas a propósito do que não quer, lhe desagrada, acha mal, critica, etc, fica em silêncio absoluto, quando lhe pergunto qualquer variação de “Então o que quer concretamente que aconteça?”; “O que corrigiria essa situação?”. E diverte-me porque naturalmente me reconheço também 🙂 Somos todos muito iguais nas nossas diferenças.

O que está mal – ou seja, o que nos cria emoções desagradáveis – tem uma força de atracção irresistível. É mesmo assim, e esta característica de processamento de informação, em que o negativo é muito mais valorizado do que o positivo, tem-nos permitido sobreviver como espécie. É quem melhor antecipa o perigo, que tem maior probabilidade de ficar para contar a história, claro. Por isso somos descendentes exemplares de uma longa linhagem, bem apurada, de preocupadores, ruminadores, catastrofizadores, negativistas e pessimistas.

E isto está presente em variadíssimas vertentes do nosso funcionamento; esta é apenas uma delas. Temos um historial que nos diz que esta situação que estamos a viver é uma réplica de um passado que não correu bem. E, com total independência de também lá termos polvilhado pelo nosso passado os exemplos opostos, são estes – os negativos – que se nos oferecem à memória, e aos quais voltamos. O único problema é que a atenção não consegue ser dividida (esqueça lá o multitasking, que já foi desmascarado como mito urbano): ou está num sítio, ou está noutro. As boas notícias são que, quem segura o foco atencional, é a vontade de cada um. Por isso, o cérebro faz o seu automatismo de velho do Restelo e a nós cumpre-nos, esforçadamente, orientar a atenção para os temas que ficam num presente a caminho do futuro: “O que é que eu quero, então?”; “Na minha opinião, o que teria de acontecer concretamente, que seria suficiente para corrigir seja lá o que for que me esteja a desagradar?”.

Ainda há uma outra boa notícia: é que ao fazer isto, e com algum treino em fazê-lo, torna-se difícil voltar atrás, aos círculos de insatisfações e recriminações que andávamos a desenhar, porque se trata apenas de uma competência interna, de análise de situações, e, como competência que é, pode ser treinada. E não é apenas uma competência qualquer – é uma que está numa posição central da satisfação e serenidade que podemos ter na vida.

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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    2020-09-05T15:23:29+01:00Setembro 5th, 2020|Bem-estar, Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo|
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