A pantufinha e o ténis: falemos de conforto

A pantufinha e o ténisNão me interprete mal. Não sou defensora desta cultura do maravilhoso instantâneo, musculado e hiperactivo. Do mundo pessoal instagramável. E menos ainda da mania da construção da “melhor versão de mim própria”, só porque sim, por diz que é isso que deve ser o nosso moto de vida”. Nem do seu oposto: um marasmo que tem por balizas o “não vale a pena” e o “quem me dera, mas acho que não é para mim”.

Por isso, falar de sair da zona de conforto pode ser perigoso porque nos atira para esta polarização. O objectivo é calçar as pantufas ou dar corda aos sapatinhos de corrida? Ambas. Depende.

Zona de conforto é coisa que dispensa apresentações de tão instintivo que é o conceito: é aquela mornidão agradável, previsível de rotineira, sem esforço nem desafio. Sabe bem que se farta, mas “chata” é o seu nome do meio. O próprio conceito de zona de conforto só deveria admitir o plural (uma pluralia tantum – cof, cof, aplausos pela erudição gratuita, sim?), como férias ou parabéns. Porque podemos estar numa caixinha algodoada de conforto no trabalho, e no meio de um ciclone de mudança pessoal; vivermos turbulência durante o dia, e recompensarmo-nos com a quietude depois do trabalho. Porque numa pequena coisa (como escrever artigos como este) podemos estar a atirar-nos para fora a zona de conforto e noutros (como analisar bibliografia relacionada) podemos estar como peixinhos na água. E podemos, até, transitar em fases, do estacionamento à velocidade do turbo, avanço-pausa, novo avanço-nova pausa.

O importante é perceber que dentro da zona de conforto não há mudança, mas sim consolidação e reparação. Fora da zona de conforto está o desafio e crescimento, e a possibilidade de criar mudança, junto com algumas esfoladuras inevitáveis.

E daqui decorre, pela lógica, que não podemos estar sempre, e em todas as áreas da nossa actuação, nem dentro nem fora da nossa zona de conforto. Sempre, em tudo, fora da zona de conforto, ou a fazer por isso e, na pior das hipóteses, fritamos (na melhor das hipóteses, transformamo-nos em manta de retalhos). Sempre, em tudo, dentro da zona de conforto, e viramos couve, para ali plantada, à mercê de lagartas.

Agora que estabelecemos que não advogo o esforço como modo de vida, vamos lá falar das suas zonas de conforto e como sair delas, porque para lá ficar ninguém precisa de ajuda.

Onde está e não quer estar?

Comece por pensar onde está nas várias áreas da sua vida actual, mantendo presentes os seus grandes objectivos de direcção de vida. E assumindo o provérbio chinês que diz que “Se não mudarmos a direcção em que vamos, é provável que acabemos no local para onde nos dirigimos”, assinale as suas maiores incongruências.

Numa folha de papel, anote tudo o que gostaria de modificar: competências profissionais, grandes ou pequenas mudanças pessoais, competências de comunicação, aspectos relacionais, hábitos que quer criar ou eliminar,…

Agora, coloque uma anotação visual que lhe dê uma ideia do ponto onde está, por comparação com o ponto onde quer estar. Por exemplo:

Zona de conforto

Escolha 5 destas maiores incongruências e detalhe o que tem de acontecer para retomar o seu rumo.

Anote-as neste esquema que mostra o afastamento da sua zona de conforto:

E agora marque-as com estrelas: de 1 estrela de importância para 3 estrelas de importância máxima para si. Sem pensar muito no assunto, apenas consultando a sua intuição em relação à importância que atribui a estas mudanças de vida.

Para eleger os aspectos em que pode já começar, escolha as mais importantes, mas que se situem no círculo de apenas 1 grau de desconforto.

Neste momento, temos um plano estratégico. Falta-nos a táctica, que sem ela não se ganham batalhas no terreno.

Porque é que está na caixinha?

Volte a olhar para o seu gráfico: se estes são temas desviados daquilo que pretende ver no seu futuro e até têm importância para si, porque será que fica aí sentado a devanear com o tema (tradução: instalado na sua zona de conforto)?

Como somos todos muito iguais no fundamental do que nos torna humanos, deixe-me dar-lhe as principais razões, além da omnipresente tendência para a inércia, sempre tão eficiente do ponto de vista do consumo energético. Levante a mão sempre que se identificar com uma destas motivações para permanecer na sua zona de conforto.

  • Medo do desconhecido, do incerto

Aqui sei como estou, mesmo que não esteja bem; ali… sei lá eu; e se mudo para pior?

  • Medo da rejeição, da crítica, da reprovação

E se, depois, não gostam do resultado de mim em versão nova? Se me rejeitam, abandonam, dão com os pés?

  • Medo da incompetência

E se descubro que não dou para aquilo? Que não me oriento, fracasso, faço papel de parva? Me ponho a jeito para o ridículo ou apenas perdi tempo valioso e esforço para coisa nenhuma?

  • Medo da troca de identidades

Mas eu sou uma pessoa A (exemplo: reservada, tímida) e isto obriga-me a ser uma pessoa B (exemplo: que mobiliza as atenções). Não é uma versão melhor de mim – é integralmente outra pessoa, que me cria estranheza e não me assenta bem.

Levantou o braço em mais do que uma? É provável que assim tenha sido.

E reparou que o denominador comum é a palavra “medo”? Estamos, portanto a falar de uma reacção visceral, primitiva, treinada desde que nascemos. Mais do que isso, estamos a falar de uma emoção que promove o evitamento. É básico: se tem medo do bicho, não se atira para ele para lhe fazer festinhas e sentar no colo, pois não? O primeiro movimento é de retracção, de “deixa-me pôr a milhas”.

Anote no seu diagrama qual é a mola emocional que o prende.

Isto é importante porque é a base do que justifica…

Porque é que não sai da caixinha

Porque tem medo, ora essa! Podemos colorir isto de muitas formas que fiquem melhor quando estamos a explicar a alguém porque é que ainda não fizemos X, mas, no fundo, há uma emoção que nos empurra para longe daquele passo que temos de dar para fora da zona de conforto. Chama-se a este colorido racional uma racionalização: criamos justificações lógicas e até mesmo inultrapassáveis para não nos pormos a mexer da caixa para fora. Serão mais do que aceitáveis se nascerem da lógica e análise; mas convém não nos enganarmos com elas se o verdadeiro motivo pelo qual não saímos da zona de conforto emanar do medo que temos em fazê-lo.

O próprio evitamento como resposta a este medo pode ser difícil de detectar, porque tem várias faces, ainda que o evitamento seja sempre uma versão do “não faço”.

Há o evitamento total, claro. Ela não atravessa pontes, por medo de se sentir mal. Ele não se candidata a empregos de que gostaria por saber que implicam em exposição pública, que o deixa aterrorizado. Ela não deixa o marido pelo medo de ficar sozinha. Ele não discorda abertamente, por medo de passar por uma humilhação.

Mas também há outras faces mais subtis:

  • O adiamento consecutivo ou procrastinação (ou, em bom português, empurrar com a barriga): não é agora, já vai, só mais um bocadinho, amanhã que o tempo melhora, hoje espirrei, assim que me nascerem asas,…
  • O passar da batata quente – também chamado de delegação, se quisermos ser pomposos. Vai lá tu, que tens jeito para isto.
  • Pôr o pé na água, sem lá entrar todo. Faço uma parte, até um ponto, sem muita convicção e mais do que isso não, que a água está muito fria para o meu gosto.
  • As racionalizações estruturadas: não posso fazer isto por a+b+c+d+… Claro! Óbvio! Não se está mesmo a ver?

Destas formas de evitamento (que não esgotam a criatividade humana), onde residem os seus talentos? Quer fazer um pequeno exercício de identificação das formas como anda a praticar o evitamento, para cada um dos temas que anotou como devendo estar a movê-lo para fora da sua zona de conforto?

A propósito da necessidade de criarmos um percurso sistemático para conseguirmos partir à conquista do nosso desconforto, sugiro-lhe esta TedTalk interessante e prática, que dá um bom exemplo, neste caso em relação ao ENORME desconforto da rejeição e que foi gerida ao longo de um processo chamado de dessensitização:

Exercícios de alongamento

Gosto de pensar na movimentação para fora da zona de conforto como um exercício de alongamento, que ajuda os músculos a manterem a sua flexibilidade e a não criarem contracturas dolorosas e impeditivas do movimento. E mandam as boas regras que qualquer exercício seja feito de uma forma gradual e com gentileza, sob pena de ser pior a emenda do que o soneto.

Antes de irmos ao ‘como’, falemos do ‘porquê’. Alongarmo-nos para além da nossa versão actual, englobando outras competências, é útil e mantém-nos jovens. Em primeiro lugar, porque fazemos o que, de outra forma, não faríamos. Em segundo lugar, porque estimula aspectos vitais de curiosidade, aprendizagem e descoberta – excelentes antídotos da rigidificação, do envelhecimento e da apatia. E, finalmente, porque nos dá as bases da auto-eficácia – a convicção nas nossas capacidades para levarmos a bom porto aquilo que queremos empreender (ou seja, é no fazer que nos vamos certificando das nossas capacidades para fazer isso e muito mais).

Portanto, sair da zona de conforto, naquilo que nos faça sentido e/ou precisemos é uma excelente ideia. Mas… Convém que as expectativas estejam correctas.

Basta pesquisar um bocadinho por este conceito e fica-se com a seguinte ideia resumida:

  • estar na zona de conforto é coisa para zombies
  • para sair da zona de conforto basta encher o peito de ar, gritar “Cá vou eu” (ou, para quem leu o Asterix: Ave Cesar, morituri te salutant) e dar um pulo fotogénico entre duas montanhas
  • e depois é ficar a contar as magias infindas que se vão desenrolar num estado de graça e felicidade que não é dita, mas que se pressupõe

Ora bem…

  • Não há nada de errado em permanecer no sofá a ver séries de televisão (desde que seja essa a sua ambição máxima na vida)
  • Sair da zona de conforto é coisa que se faz muito devagarinho, com dois passos em frente e um para trás, e nos dias maus o oposto (e tem muito pouco de fotogénico…)
  • Não há pulos, mas uma sequência de auto-empurrões, contrariado, na rezinguice, dizendo muito mal da vida e – regra geral – encolhido de medo
  • Há muita coisa que pode correr mal (ainda que não faça mal nenhum, porque é com os insucessos que aprendemos, como os milhares de frases motivacionais que por aí andam podem comprovar), e pode mesmo obrigar a rever os planos
  • Por vezes, sai-se da zona de conforto, apenas para aprender que lá dentro é que teria sido uma rica ideia
  • E pouco tempo depois de estar lá do outro lado já aqueceu o lugar e marcou a cabeça naquelas almofadas com memória e essa passou a ser a sua nova zona de conforto, pelo que tudo recomeça

E esta é a história que vai ficando debaixo do tapete, não sei muito bem porquê. Talvez porque quem tem a responsabilidade de a contar se sinta na obrigação de infantilizar os outros, crendo-os assustadiços e pouco motivados para dirigirem a sua vida para onde muito bem entendem. Aliás, a pílula tem sido tão bem dourada que nem há nome para a zona para lá da zona de conforto (há umas quantas, mas variam com cada autor). Sejamos práticos: para lá da zona de conforto está o desconforto, até que se torne confortável. Mas se quiser evoluir como ser humano e assumir o controlo da sua vida, não tem como o evitar.

Se não pulo, então como empurro?

Falta-nos o “como”, verdade? Existem diversas sugestões importantes para o fazer. Mas, no fundo, é disto a que nos dedicamos num processo de intervenção psicoterapêutica, de uma forma ou de outra, não é? Há um problema, ao qual foram aplicadas as estratégias conhecidas e habituais de cada um e não estão a resultar. Para alterar o impacto do problema ou o próprio problema é preciso abandonar o que nos é familiar e conhecido, confortável, e partir num caminho, traçado à medida da descoberta do que está para lá daquela esquina, dominando, a cada momento, o desconforto do desconhecido.

Mas tendo em conta que é suposto estarmos sempre a tentar sair da nossa zona de conforto numa ou outra área das nossas vidas, deixo-lhe 12 sugestões rápidas que espero o possam ajudar a desenhar um caminho de crescimento pessoal.

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23/05/2019

Madalena, ótimo artigo! Cada vez aprendo mais, obrigada!!

Maria Cristina
24/04/2019

Excelente, motivador.

Lilian
23/04/2019

Madalena,
Como já lhe referi um dia, gosto muito dos seus artigos. aprendo sempre mais alguma coisa sobre como funcionar melhor interiormente e, arranjar o impulso de abraçar novos desafios, isto é, sair da minha zona de conforto. Obrigada por partilhar 🙂

Julieta Cristóvão
19/04/2019

Muito impulsionador!

Eugénio João
17/04/2019
Márcia
Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2019-04-11T09:34:11+00:00Abril 11th, 2019|Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo|