A depressão que se cansou

Psicólogo: “O que a traz aqui?”

Cliente: “Estou muito deprimida.”

Psicólogo: “Pode explicar-me um pouco melhor o que sente e como chegou a essa conclusão?”

Cliente: “É um cansaço extremo, custa-me imenso a fazer qualquer coisa, é como se tivesse o corpo pesado.”

Psicólogo: “E qual foi a última vez que fez um check-up médico?”

Cliente: “Há pouco tempo. Estava tudo bem. O meu médico disse-me que não tinha nada. Que estava deprimida.”

A depressão que se cansouEste diálogo repete-se algumas vezes ao longo das semanas… E a propósito disto, eu teria muitas páginas para escrever que provavelmente ninguém teria paciência para ler 🙂 Por isso, vou selecionar aqui apenas um ângulo: o cansaço, a psicologia e a medicina.

O corpo é central não apenas na medicina, mas também na Psicologia. Porque são emoções que nos trazem os clientes às consultas, e as emoções residem no corpo. Onde mais poderiam estar senão no corpo? E, por isso, na procura das emoções, vai-se particularizando, investigando a experiência de cada um e chega-se aos aspectos básicos de um corpo que fala, como fala com médicos: é o cansaço, o sono, o aperto, a dificuldade em respirar, a dor física, a falta de energia, etc.

O corpo, infelizmente, tem um dicionário muito limitado e, por isso, uma mesma “palavra” – sintoma – pode ter diversos significados. Uma dor de cabeça pode significar umas largas centenas de coisas, verdade? Sintomas que levamos aos médicos, por exemplo, serão umas dezenas, mas diagnósticos listados no ICD (International Classification of Diseases) estão cerca de 90.000. Tudo a partir de umas quantas palavras que o corpo nos consegue dizer. E o cansaço é uma delas – de nome técnico fadiga. E chamar-lhe fadiga em vez de cansaço não é displicente. Porque temos toda uma carga cultural em torno da palavra “cansaço” que nos remete para um esforço excessivo e consequente necessidade de descanso, algo que, regra geral, não serve para nada quando estamos a falar de fadiga. Esta já é uma palavra que significa energia vital em baixo, e é uma consequência das mais diversas condições – médicas e psicológicas (já que as temos de distinguir em duas disciplinas nesta nossa cultura moderna ocidental).

A fadiga é difícil de encontrar no corpo, contrariamente a outros sintomas – encontramos facilmente a tensão arterial e a temperatura corporal, por exemplo. Já a fadiga, uma reacção muito macro e de muitas causas possíveis, é difícil de localizar. Ora a investigação quanto a um sintoma tem limitações naturais: não se podem revirar pessoas em múltiplos exames e baterias de testes, à procura de causas fugidias como esta. Por isso, o que habitualmente se faz é investigar as hipóteses mais comuns (procura-se o prevalente e não o raro, a não ser que a sobrevivência de uma pessoa esteja em causa); neste caso, provavelmente uma possível anemia e um funcionamento anormal da tiróide – e estou agora a falar apenas com base em senso comum, já que não sou médica.

Mas é pela área médica que se deve começar! E isto explica porque é que pergunto sempre pela última visita ao médico. E explica também porque é que fico sempre desconfiada com uma resposta de “não tenho nada”. Precisamente porque ninguém prescreve todos os exames possíveis – apenas os que dão resposta às situações mais prováveis. É comum eu pedir para ver os exames (novamente: não sou médica, nem percebo nada da área médica; mas sou curiosa, estudo muito várias disciplinas e tenho boa cultura geral…) e verificar que há temas que me parecem que deveriam ter sido investigados e não foram – e que podem justificar os sintomas apresentados.

De acordo com Lisa Sanders, médica, autora de 2 livros e colunista no The New York Times, consultora da série televisiva Dr House, e com base em estudos efectuados: “O erro de diagnóstico mais comum em medicina é o fecho prematuro: quando um médico deixa de procurar um diagnóstico depois de encontrar um que explica a maioria, senão todos, os resultados principais, sem que faça a pergunta fundamental: que mais poderia ser isto?”. Ainda segundo a mesma autora: “Em vez de aceitarem os sintomas de um paciente como reais mas não explicados, os médicos, demasiado frequentemente, assumem os sintomas como não reais (“é tudo da sua cabeça”) ou, em alternativa, sobrevalorizam pequenos indícios num esforço de afastar a incerteza com um diagnóstico claro. Nenhuma destas respostas é útil para o paciente”. E eu acrescentaria: tanto médicos, como psicólogos; o barco é o mesmo, nestes aspectos.

E aqui chegamos à famosa depressão, nas bocas do mundo. Tudo é depressão e basta qualquer coisa que se assemelhe a tristeza ou maior retracção ou inércia e lá temos uma alma bem informada a dizer “Tu estás é deprimida”. E, se se queixar a um médico e a bateria de testes habitual não mostrar valores alterados, pode ter por certo que a depressão vem à baila. Queixe-se a um psicólogo e verá que o primeiro diagnóstico que salta também é o de depressão. Como uma gripe no inverno, basta falar nos seus sintomas, que já ninguém pensa em mais nenhuma outra hipótese explicativa para aquilo que sente – o que é lógico, eficiente e nem poderia ser de outra maneira, mas…

Vamos, por um momento, ignorar o facto importante de que pode ter um problema médico que requer ser identificado e tratado. E vamos ficar apenas com este tema de lhe ter sido colado um rótulo que, ainda por cima, vem com o menosprezo de que não é bem real – “não tem nada; está deprimida”: é assim que a questão é colocada, pensada, recebida, sentida.

O que se segue a isto? Normalmente (basta analisar o número de medicamentos vendidos, sobretudo em Portugal, um recordista habitual em vendas de psicofármacos), alguém lhe dá antidepressivos. Vem o rótulo e vem a pílula mágica. E tempo. Tempo durante o qual não se investigam outras hipóteses, quiçá mais lógicas e passíveis de serem demonstradas, nem se consulta um psicólogo clínico e da saúde que poderá, mais facilmente, verificar o diagnóstico.

E, infelizmente, ninguém lhe explica que as perturbações de saúde mental, tal como as condições médicas, têm critérios clínicos bem definidos para poderem ser diagnosticadas como tal. Pode saber tudo sobre depressão nesta nossa página. E nenhum desses critérios é “quando não se consegue explicar de outra maneira os sintomas apresentados”…

Voltemos à fadiga. A sensação de falta de energia é sempre algo que deve ser avaliado com muita seriedade porque, na sua base, podem estar diversos problemas, alguns deles bastante sérios e que requerem tratamento sem mais demoras. A si, responsável último pela sua saúde, compete-lhe perguntar sempre em relação a qualquer diagnóstico: “Porque é que diz isso? Quais são os critérios em que se baseia para esse diagnóstico”. E deve colocar esta pergunta tanto a um médico, como a um psicólogo. Por um lado, verifica que o profissional que está do outro lado está a fazer uma avaliação com base em evidência científica e não numa opinião ou num diagnóstico por exclusão de partes. Por outro lado, fica informado e melhor habilitado a tomar as decisões que entender serem melhores para si.

E lembre-se: fadiga, só por si, não é depressão. Mas cansa qualquer um ver repetida e convictamente as queixas de fadiga a serem despachadas como depressão, sem mais aprofundamento…

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Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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    2020-08-26T11:29:09+01:00Depressão, Madalena Lobo|
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